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Busterz Magazine

Because music is life.

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Review: The Weeknd – Beauty Behind the Madness (2015)

Escrito por Nate Schlosser
Review: The Weeknd – Beauty Behind the Madness (2015)

“Beauty Behind the Madness” é o passaporte definitivo de Abel Tesfaye para o cenário mainstream.

Em 2015, Abel Tesfaye dominou as paradas e lançou o seu segundo álbum de estúdio, “Beauty Behind the Madness” (2015). Esse disco possui uma mistura atraente de R&B, pop, hip hop, soul e eletrônica. Em algumas momentos você ouve sons de synth-pop e funk dos anos 80, mas em outros de trap e glam rock. De fato, “Beauty Behind the Madness” mostra um lado vulnerável de sua arte; é uma colaboração com Illangelo, Kanye West, Max Martin e Mike Dean. Aqui, Abel nos leva por uma jornada pessoal enquanto fala abertamente sobre como eventos do passado impactaram o seu futuro. Ele não aparece imediatamente como uma típica estrela pop, em vez disso descreve a si mesmo como um introvertido emocional preso por sua dependência química. Temas como estes, além do amor e desgosto, andam de mãos dadas com a produção sombria e melancólica. Ao abraçar uma sensibilidade pop recém-descoberta, Weeknd lançou músicas como “Can’t Feel My Face”. Através desse single, ele conseguiu equilibrar o pop com letras sombrias, em algo que parecia uma típica canção de amor. Sua primeira aparição mainstream aconteceu em “Earned It” da trilha sonora de “Cinquenta Tons de Cinza” (2015) – uma canção de R&B com arranjo exuberante, humor abafado e vocal sensual.

Definida pelo instrumental orquestral, “Earned It” trocou o baixo e o piano por toques de violino e batidas extremamente contundentes. A faixa de abertura, “Real Friends”, apresenta poderosos riffs de guitarra, cordas sintéticas e pesados sintetizadores. Sua dinâmica é particularmente fantástica, principalmente pelo contraste entre as guitarras e cordas orquestrais. The Weekend é liricamente revelador e introspectivo, conforme se abre sobre o quão insustentável ele é: “Mamãe me chamou de destrutivo, disse que eu me arruinaria um dia”. A catarse lírica é impulsionada pela produção estrondosa, utilizando piano e cordas para complementar a melodia e os vocais. “Losers”, com Labrinth, muda completamente de ritmo, pois é um experimento funk que transita pelo electro-house e o dramático glam rock dos anos 80. Inicialmente, há uma instrumentação guiada por riffs de piano, mas posteriormente surgem sintetizadores, metais extravagantes e elementos jazzísticos. Enquanto isso, ambos refletem sobre suas ambições profissionais. Depois do primeiro refrão, a produção baseada no piano é substituída por sons muito mais eletrônicos.

Mas embora possua uma premissa interessante, “Losers” não é tão poderosa ou suficientemente emocional para causar impacto. Produzida pelo Kanye West, “Tell Your Friends” é um número de R&B com emocionantes acordes de piano e riffs de guitarra elétrica – um enorme passo para longe da atmosfera sinistra do “Trilogy” (2012). Aqui, ele proclama: “Eu sou aquele cara com o cabelo / Cantando sobre tomar pílulas, fodendo vadias / Vivendo a vida no limite”. Weeknd usa “Tell Your Friends” para olhar para trás, nos lembrando que ainda é o mesmo diante de toda a fama, embora algumas coisas tenham mudado. O primeiro single, “Often”, é um dos números mais atraentes do repertório. Depois do início sinistro e misterioso, Abel imediatamente expressa sua vontade de sair da solidão. É uma canção claramente sexual – a nítida batida e os sintetizadores são combinados perfeitamente com os vocais. A produção de “The Hills” é grande, hipnótica e exótica, conforme as letras invocam imagens obscuras. Mais uma vez, Weeknd derrete suas letras na instrumentação a fim de criar um ambiente mentalmente escuro. “Quando eu estou fodido, esse é o meu verdadeiro eu”, ele se auto define. Muitas vezes, suas letras servem como brechas para falar de sonhos, sexo, drogas e álcool. 

Depois de se desviar ligeiramente em “Earnet It”, ele voltou com suas reflexões sedutoras através da elegante estética de “The Hills”. Produzida por Illangelo, é um número de R&B alternativo com batidas absolutamente sufocantes. No primeiro segundo, você é imediatamente surpreendido por um riff de guitarra instável, antes dos elementos eletrônicos tecerem o caminho para os vocais. No momento que o refrão chega, você já está totalmente envolvido com a paisagem sonora exuberante. Após o segundo refrão, ele surpreende ao flexionar seus vocais e utilizar com maestria seu incrível falsete – uma de suas marcas registradas. Outra coisa interessante é a forma como sua voz aparece filtrada, distante e nebulosa. Em “Acquainted” – originalmente gravada como “Girls Born in the 90’s” -, existem algumas padrões de bateria tropical e elementos de trap. Estilisticamente, sua escuridão e mau humor são uma boa representação do álbum. “Can’t Feel My Face”, por sua vez, é uma canção de disco e funk com grandes semelhanças a algumas obras do Michael Jackson. Liricamente, permanece dentro da proposta do Abel – girando em torno de drogas, sexo e muitas vezes uma combinação dos dois.

“Eu não posso sentir meu rosto quando eu estou com você, mas eu amo isso”, ele canta comparando a companhia de uma mulher com as drogas. Sua produção é incrível e fornece uma batida diferente de qualquer outra apresentada por ele anteriormente. Tem um apelo pop mainstream perceptível, mas com a típica perspectiva influenciada por seus vícios e vida noturna. Seu ritmo é bastante otimista e combinou perfeitamente com as letras e o baixo funky. O sintetizador oscilante da abertura, a queda no refrão e a guitarra também são complementos notáveis. Em outras palavras, é uma canção irresistivelmente cativante. O desempenho do Abel foi canalizado de forma tão saltitante e energética que ficou em perfeita sintonia com a produção do Max Martin. “Shameless” é uma balada sombria e acústica com um suave alcance vocal. Desta vez, ao invés de se desculpar por seus erros, ele culpa a garota. No entanto, as referências narcóticas distorcem inicialmente essa dedução. Liricamente, é uma das faixas mais preguiçosas do álbum. Além disso, é monótona do ponto de vista instrumental, e só desperta atenção quando a guitarra elétrica é exposta.

“In the Night” é outra canção fortemente influenciada pelo Michael Jackson – um synth-pop com tema pesado de abuso sexual, onde ele revela algo trágico que aconteceu com uma garota na infância (“Ela era jovem e foi forçada a ser uma mulher”). Embora a produção seja energética e dançante, o verdadeiro significado por trás das letras é bastante sombrio. Abel apresenta linhas que mostram que a garota se tornou stripper depois da infância traumática (“Na noite ela está dançando para aliviar a dor”). Musicalmente, “In the Night” utiliza uma sonoridade synth-pop e disco-funk conforme apresenta sintetizadores no mesmo âmbito de produções oitentistas. Outra ponto positivo é o seu frágil e belo registro vocal. “As You Are” abre com sintetizadores deliciosamente melancólicos enquanto apresenta um refrão arejado e belos falsetes. Desta vez, ele se concentra em um relacionamento onde ambos parceiros são infiéis. É outra música que mostra suas atitudes conflitantes em relação ao amor. “Dark Times”, com Ed Sheeran, apresenta riffs de guitarra levemente abafados, além de batidas sutis e graves profundos. No refrão, o britânico relembra dos tempos em que caía sobre velhos hábitos: “Nos meus momentos sombrios, voltando para rua / Fazendo essas promessas que eu não podia cumprir / Só minha mãe poderia me amar como sou”.

As letras são emotivas e profundamente introspectivas. Em seguida, é a vez de Lana Del Rey se juntar a The Weeknd. “Prisoner” possui melodias e harmonias muito boas, à medida que os vocais estão ofegantes e inevitavelmente melancólicos. Sobre acordes sombrios e sintetizadores, eles falam em ser prisioneiros dos seus vícios. Enquanto ele aborda o amor, ela contempla seu relacionamento com Hollywood. A última faixa, “Angel”, é simplesmente perfeita. Sua voz soulful exala uma sensação de intensidade, assim como as harmonias angelicais são estelares. “Angel” é uma balada épica, atmosférica e convincente. É exatamente aqui onde o título do álbum se torna realmente claro. Mesmo que seja um pouco atormentado por letras previsíveis e misóginas, Weeknd conseguiu criar um ótimo corpo de trabalho. “Beauty Behind the Madness” é um álbum que se destaca principalmente pela produção. Para um artista com um catálogo tão obscuro quanto o dele, a transição para o mainstream nunca seria uma tarefa fácil. Apesar de suas falhas e lirismo ás vezes escorregadio, “Beauty Behind the Madness” é uma vitória para The Weekend – ele revisita glórias do passado e os resultados são impossíveis de contestar.

SCORE: 72

Review: The Weeknd – Beauty Behind the Madness (2015) was last modified: novembro 15th, 2022 by Nate Schlosser
29 de agosto de 2015

Review: Carly Rae Jepsen – E•MO•TION (2015)

Escrito por Nate Schlosser
Review: Carly Rae Jepsen – E•MO•TION (2015)

O terceiro álbum de Carly Rae Jepsen é inundado por momentos cativantes fortemente inspirados pela maravilhosa década de 80.

O “E•MO•TION” é o terceiro álbum de estúdio da Carly Rae Jepsen – lançado três anos depois do sucesso de “Call Me Maybe”. Ele possui uma qualidade indiscutível e praticamente evoca os anos 80 com suas ondas de sintetizadores. Suas letras são simples e diretas – com temas universais para qualquer um se identificar. Dessa vez, ela se afastou um pouco do bubblegum pop e embarcou através de um synth-pop mais maduro e sofisticado – por trás da produção temos nomes interessantes como Dev Hynes e Rostam Batmanglij. Sonoramente, “E•MO•TION” contém melodias arrebatadoras e, embora não seja inovador, é um conjunto de grandes canções. Ele abre com “Run Away with Me”, uma das melhores canções de 2015, que poderia ter se tornado um hino do verão. Um brilhante dance-pop que abre imediatamente com um explosivo saxofone. Sua eufórica produção ficou a cargo de Shellback e Mattman & Robin, que foram buscar inspiração na década de 80 para sua criação. Ela realmente tem uma tendência oitentista, além de uma vibe retrô e nostalgia maravilhosa que lembra “Teenage Dream”, da Katy Perry. Em contraste com as letras grudentas de “Call Me Maybe”, “Run Away with Me” tem um lirismo que transita para um som mais adulto.

“Querido, me leve até aquela sensação / Vou ser sua pecadora em segredo / Quando as luzes se apagarem, fuja comigo”, ela canta no adorável refrão. Mais tarde, ela sussurra sedutoramente: “No fim de semana, podemos transformar o mundo em ouro”. Assim como “Teenage Dream”, “Run Away with Me” tem todas as peças de uma canção pop perfeita. Jepsen conhece seus limites vocais e dado o seu alcance, entrega uma melodia inegavelmente cativante. Desde a produção memorável ao enlouquecedor riff de sax, tudo é entrelaçado através de uma oferta sólida e de qualidade. Para a faixa-título, ela e sua equipe resolveram apostar em um contagiante riff de guitarra elétrica. Embora funciona no contexto do álbum, traz uma produção electropop que lembra o “Kiss” (2012). Tanto a estrutura quanto a progressão são semelhantes e açucaradas. Lançada como primeiro single, “I Really Like You” é um dance-pop / synth-pop que incorpora elementos de new wave. Uma canção de amor inofensiva com letras extremamente repetitivas, onde ela fala a palavra “really” cerca de 60 vezes ao longo de 3 minutos e meio. Sua atmosfera eufórica ajuda a vender a sensação de estar apaixonada e admitir abertamente seus sentimentos.

Ela serve como um retrocesso para os velhos tempos do bubblegum pop. Embora pareça uma música que tenta recriar o sucesso de “Call Me Maybe”, o refrão não possui o senso melódico e as cordas sincopadas da mesma. Sua letra é mais voltada para os pré-adolescentes apaixonados, embora a produção tenha um ar de qualidade. Apesar do bom hook, “Gimme Love” é uma canção simples com ritmo quase robótico. Uma balada açucarada onde Jepsen implora por amor ao longo de um solitário riff de guitarra. Sonoramente, é uma mudança bem-vinda e há um pouco de influência de deep house. Talvez a canção mais surpreendente do álbum seja “All That”, uma verdadeira e sincera homenagem aos anos 80 – uma canção tão deliciosamente pegajosa que é difícil acreditar que não seja uma balada da Cindy Lauper ou do Prince. Embora não tenha qualquer complexidade estrutural, tem êxito e exala algo genuíno. É encantadora e inesperada, mesmo sendo uma balada tradicional dentro de um disco pop predominantemente inspirado pelos anos 80. O refrão soa estranhamente sedutor e eficaz. Enquanto o conteúdo lírico cria um clima sombrio e desolador, o baixo, a lenta progressão e o maravilhoso sintetizador constroem algo realmente espetacular. 

Co-escrita pela Sia, “Boy Problems” é um tanto quanto inspirada por La Roux. Embora não seja necessariamente ruim, não é boa o suficiente para se destacar. Liricamente, soa tímida e um pouco infantil: “Acho que terminei com meu namorado hoje / E eu realmente não me importo / Eu tenho problemas piores”. Sua melodia é cativante e a vibração despreocupada, mas os sintetizadores beiram o irritante. Também co-escrita pela Sia, a cintilante “Making the Most of the Night” é uma história maravilhosamente sombria. Jepsen realmente sabe quais são seus pontos fortes; é uma canção eletronicamente impulsionada com um tom surpreendentemente sombrio. Os versos são entregues com determinação enquanto o refrão é inesperadamente extravagante. Não é tão poderosa quanto “Run Away with Me”, mas também tem a frenética energia do synth-pop dos anos 80. De fato, é dominada pela percussão e tem um charme próprio. “Your Type”, por sua vez, é um synth-pop também influenciado pela música dos anos 80: uma balada onde Jepsen expressa seu interesse em um relacionamento, apesar de crer que não faz o tipo de determinada pessoa. Aqui, ela explora o conceito de um amor obsessivo não correspondido.

“Desculpe, eu te amo / Sinto sua falta, estou sendo sincera, tentei não sentir / Mas não consigo te tirar da minha cabeça”, ela declara. As letras são relacionáveis para qualquer um, pois é basicamente sobre alguém que ama uma pessoa que a vê apenas como amigo(a). É um electropop apaixonante com refrão feliz, embora liricamente melancólico. Apesar de não ter um dos vocais mais fortes da indústria, Jepsen soa incrivelmente envolvente. O pré-refrão, o refrão, as batidas estridentes e os sintetizadores de estratificação, são simplesmente incríveis. O bubblegum pop é predominantemente destaque em “Let’s Get Lost” – o tipo de música que fica se repetindo em sua cabeça por horas. O começo é um pouco sombrio, mas, depois de um tempo, se torna alegre e transforma-se em algo completamente diferente. O saxofone jogado durante a ponte é encantador, e mostra uma pequena e salpicada influência de jazz. Em seguida, há uma atrevida mudança de ritmo quando “LA Hallucinations” aparece. É uma canção dance-punk sobre a perda de um amor por conta da fama: “Nós dissemos que sempre seríamos os mesmos, mas nós nos perdemos no jogo”. 

Com leves batidas inclinadas para o hip hop, Jepsen tenta mostrar como a fama muda as pessoas. “Warm Blood” é incrivelmente profunda, alucinante e obscura – quase ao ponto de ser psicodélica. Uma canção eletrônica com pulsantes linhas de baixo e brilhantes sintetizadores influenciados pela música underground. Os graves profundos e a performance vocal distorcida mostram o quanto ela pode ser versátil. Liricamente, é uma confissão honesta onde ela desencadeia uma montanha-russa de emoções. “When I Needed You” é outra peça gratificante com letras agridoces e vibe oitentista. Como qualquer outra faixa do álbum, é habilmente construída e muito bem produzida. Emparelhada principalmente pela percussão e pelos sintetizadores, exibe um tema de independência inesperadamente confiante. “E•MO•TION” é um álbum realmente incrível, insanamente polido e de grande qualidade. Ele mostra que a música pop pode ser impecavelmente trabalhada sem parecer fabricada. Depois de chegar ao auge em 2012, Carly Rae Jepsen pareceu determinada em criar um pacote coeso. O trabalho árduo e sua reinvenção são perceptíveis. Quando ouvimos esse álbum somos imediatamente transportados para a década de 80. Nada parece ultrapassado, desatualizado ou forçado. “E•MO•TION” superou minhas expectativas.

SCORE: 74

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25 de junho de 2015

Review: Florence + the Machine – How Big, How Blue, How Beautiful (2015)

Escrito por Nate Schlosser
Review: Florence + the Machine – How Big, How Blue, How Beautiful (2015)

“How Big, How Blue, How Beautiful” é um disco robusto construído de forma cuidadosa para suportar a dor de Florence Welch.

Florence Welch e sua banda, também conhecida como Florence + the Machine, acabou de lançar o seu terceiro álbum de estúdio. “How Big, How Blue, How Beautiful” marca o retorno da banda após um hiato de três anos sem disco novo. Um registro de indie rock refinado e despojado instrumentalmente, que incorpora uma mistura de influências musicais como o blues, gospel e rock psicodélico. A beleza de suas narrativas não perderam o brilho – o álbum coloca uma maior ênfase nas letras e exala um mar de emoções. Um pouco diferente dos discos anteriores, que lidaram fortemente com fantasias, as letras do “How Big, How Blue, How Beautiful” focam um pouco mais na realidade. É um material que lida principalmente com conflitos pessoais da vocalista e reflete sobre a forma de viver e amar, onde sua mágoa é sentida em cada palavra, nota, sussurro ou grito repentino. Sua voz poderosa, tingida com dor e angústia, é capaz de transmitir um leque de sentimentos. Seu arco narrativo é o equivalente à arte abstrata. O repertório abre em grande escala com “Ship to Wreck”. Musicalmente, é uma faixa de folk rock e pop rock que carrega um som inquieto e fala sobre comportamento autodestrutivo – uma canção com conflitos internos e diversos questionamentos.

Alguns versos são confusos, mas o pré-refrão e o refrão são incrivelmente cativantes, assim como os vocais de influência gospel. Mas apesar do tema, “Ship to Wreck” transmite uma sensação otimista e refrescante. Ela incorpora um ligeiro som rock, mas não é tão intenso e pesado como “What Kind of Man”. Uma música que equilibra as rápidas percussões com uma sonoridade mais suave. Desde o primeiro segundo, apresenta dedilhados de guitarra e batidas acusticamente aceleradas. Os versos são cheios de metáforas e referências marinhas: “Agonizando de dor, os tubarões brancos nadando na cama / E aí vem uma baleia assassina que canta para eu dormir”. Metáforas que falam sobre noites sem dormir e autodestruição estão por toda parte, mas de alguma forma a música se mantém arejada. Instrumentalmente, começa com uma mistura de guitarras melódicas, bateria e percussão. Essa combinação instrumental carrega o ritmo com facilidade e constrói a base para os vocais impecáveis. Produzida por Markus Dravs, “What Kind of Man” foi lançada como carro-chefe do álbum – um garage rock com uma nova direção sonora. Aparentemente, ela canalizou suas influências mais pesadas. Apesar da assinatura vocal da Florence Welch, a produção é um pouco diferente do seu último álbum.

Em vez de tambores contundentes, a banda se apoia fortemente na guitarra elétrica. Pode parecer uma diferença sutil, mas não passa despercebida. O tom vocal é a chave aqui – um dos aspectos mais brilhantes da música. Isso define o cenário para a abertura enquanto a turbulência de sua voz permanece temperamental e sinistra. “What Kind of Man” é inicialmente lenta, mas posteriormente é invadida por guitarras, pesadas batidas, trombetas, pandeiro e bumbo. Toda a introdução pensativa é substituída por um aspecto melancólico frisado por incríveis riffs de guitarra elétrica e vocais gospel. Liricamente, “What Kind of Man” concentra-se em falar sobre um homem indeciso que passou pela vida da Florence Welch. Embora simplista, o refrão é eficaz e a parte mais estridente da música. Ele é interpretado de forma massivamente alta sob o enorme apoio das guitarras: “Que tipo de homem ama assim?”. Como sempre acontece com canções da Florence + the Machine, ela consegue ficar ainda melhor quando se aproxima do final. Ela cria um drama eminente refletido pela mudança repentina no ritmo e musicalidade. Após o refrão com adição de trombetas, “What Kind of Man” evolui conforme os instrumentos começam a se misturar.

Quando ela chega perto do fim, uma harpa infame e uma seção de metais surge novamente. É um single mais hostil do que outros do passado, tanto liricamente quanto musicalmente. A faixa-título também aponta para uma nova direção sonora – uma balada pop de ritmo moderado com trombetas e alto uso de violinos. O arranjo melódico das guitarras, ao se juntar com os violinos e tambores, a deixa mais musicalmente diversa. É uma canção honesta que examina os efeitos da fama em um relacionamento de longa distância. Há um controle vocal incrível em exibição que desenha perfeitamente a melodia. Além disso, é lindamente composta por uma orquestra que cria um equilíbrio entre as partes mais serenas e fragmentadas. A quarta faixa, “Queen of Peace”, é uma das músicas mais cativantes do repertório. Ela fala sobre cair no esquecimento e enfraquecer diante das pressões da vida. Ao escutá-la, sentimos a dor angustiante que Welch tenta retratar através de sua voz. Ela abre lentamente através de uma introdução solene esculpida por brilhantes arranjos. Mas essas cordas iniciais não duram muito tempo e são substituídas por incansáveis batidas de tambores. Eles ajustam o ritmo agridoce enquanto os vocais exuberantes tomam conta – destaque para as trompas incrivelmente marcantes.

Após o sucesso do “Ceremonials” (2011), Welch sentiu uma grande pressão e passou por um colapso nervoso durante a criação do “How Big, How Blue, How Beautiful”. Isso, provavelmente, foi a inspiração para “Various Storms & Saints” – balada que se move em um ritmo mais lento. Ela mostra um lado mais suave de sua voz, ao passo que fala sobre encontrar a felicidade mesmo nos momentos difíceis. Tem um ar sentimental e confessional que evoca uma grande melancolia. Quando você presta atenção nas letras, percebe o quão profunda e pessoal essa música é. Trata-se de ensinar a si mesmo a ser livre e deixar de lado as preocupações; é uma canção conduzida apenas por uma guitarra e um tranquilo piano de fundo. “Delilah” começa com foco nos vocais e lentamente constrói uma energia apaziguadora. Ela progride constantemente e explora as notas mais altas da Florence Welch. Inspirada pelo conto bíblico de Sansão e Dalila, é uma das faixas mais otimistas do álbum. Ela fala sobre os perigos de ser viciado em uma pessoa, e utiliza ambos como modelo para sua história. Ela possui uma sensação dominante, principalmente por conta da triunfante batida de tambor e apoio gospel.

Por outro lado, “Long & Lost” toma um rumo mais calmo e mostra um lado diferente da Florence. Ela soa quase tímida, conforme anseia de saudade por um amor perdido. Consideravelmente mais lenta, é uma balada com sussurros vocais que seduz especialmente pelo ritmo da solene guitarra. “Caught” permanece em total conformidade com o estilo da banda. Embora não apresente trombetas ou contundentes tambores, é outra música com aspecto dominante. Ela abre sutilmente e faz uma mistura inteligente de R&B e soul. “Third Eye” inicia com um ritmo doo-wop e algumas palmas, enquanto fortes batidas tribais aparecem por trás. Welch fornece letras que fazem homenagem ao terceiro olho da tradição espiritual hindu. Enquanto os vocais seguram a primeira parte, as percussões tomam o foco. “St. Jude”, por sua vez, é uma homenagem a São Judas Tadeu – o padroeiro das causas perdidas. É provavelmente a canção mais delicada do álbum – atada por melodias e letras meticulosamente divinas. Ela é imensamente contemplativa e oferece uma mistura de sintetizadores e uma distante batida. Tudo flui facilmente, desde sua forma assombrosa até as notas altas impecavelmente mantidas.

Ela vibra com uma energia tranquila em seu comprimento e, embora nunca exploda em grandes harmonias, é muito bem escrita e realizada. “Mother” é peculiar e sensual – e há um medo subjacente que a torna ainda mais interessante. É a faixa mais longa do registro, chegando perto da marca de 6 minutos de duração. Uma composição suave com alto uso de órgãos e guitarras elétricas. Sua introdução é fanhosa e tem uma sensação escassa, mas cresce rapidamente conforme o refrão surge. Cada canção do álbum é uma verdadeira joia e juntas formam uma coleção brilhante. “How Big, How Blue, How Beautiful” é mais coeso que o “Lungs” (2009) e menos abstrato que o “Ceremonials” (2011) – crivado de reflexões, desgosto e sabedoria. Em sua essência, é absolutamente filtrado e inspirado pela vida pessoal da Florence Welch. “Lungs” (2009) era despreocupado e fluía com a sensação de se apaixonar, enquanto “Ceremonials” (2011) era obscuro e abordava os perigos da vida. No entanto, “How Big, How Blue, How Beautiful” lança suas inibições e apresenta uma metamorfose sonora. É definitivamente um álbum grande, azul e bonito – como o próprio título sugere.

SCORE: 76

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30 de maio de 2015

Review: Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly (2015)

Escrito por Nate Schlosser
Review: Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly (2015)

A excelente continuação do “good kid, m.A.A.d city” (2012) é irônica, triste, irritada e caótica – muitas vezes ao mesmo tempo.

O fenômeno Kendrick Lamar acabou de lançar o seu terceiro álbum de estúdio – “To Pimp a Butterfly” é o sucessor do universalmente aclamado “good kid, m.A.A.d city” (2012). Para aqueles que não são familiarizados, Lamar é um rapper de Compton, Califórnia, vencedor de 7 Grammy Awards. Embora ele tenha ganhado atenção com sua quarta mixtape, “Overly Dedicated” (2010), foi com o segundo álbum de estúdio que ele chegou à fama. Um projeto amplamente elogiado – descrito como um clássico moderno – , que narra parte de sua vida enquanto crescia em Compton. “To Pimp a Butterfly”, por sua vez, é meticulosamente trabalhado e apresenta um conteúdo lírico mais politicamente carregado. É um registro maduro e reflexivo com um grande crescimento artístico. Musicalmente, além do rap e hip hop, ele incorpora elementos de jazz e funk. Em suas letras, Lamar apresenta uma emoção crua, descrevendo realizações, inconsistências e falhas de caráter. Entre as variadas mensagens, o álbum faz apelos subjacentes referente ao empoderamento negro, a hipocrisia social e as tentações da fama. Dito isto, “To Pimp a Butterfly” é surpreendentemente inovador e criativo – ele ultrapassa qualquer limite imposto pela narrativa convencional da música popular.

A primeira faixa, “Wesley’s Theory”, é fortemente influenciada pelo funk. Em uma entrevista para a Rolling Stone, Lamar havia revelado o quão influente o funk dos anos 70 foi para a sonoridade do álbum. Como esperado, temos um fluxo narcótico que acompanha em perfeita concomitância a história contada. Inicialmente, “Wesley’s Theory” começa com leves sons de toca-discos e um canto distante de “Every Nigga Is a Star” (Boris Gardiner) que gradualmente fica mais alto e claro. Oscilações de guitarras e alguns jingles se juntam ao canto hipnótico enquanto mergulham profundamente na arquitetura P-Funk do colaborador George Clinton. O baixista Thundercat também aparece como contribuinte, ao passo que Dr. Dre fornece vocais adicionais através de uma mensagem de voz. Ele transmite sabedoria para Kendrick Lamar ao alertá-lo das dificuldades de manter o sucesso. O interlúdio “For Free?” traz rapidamente a primeira pitada de jazz para a jogada. O saxofone, o piano e o baixo impostos pela banda orquestral transmitem uma sensação jazzística agradavelmente otimista. Terrace Martin, filho de um baterista de jazz, lida com a produção, bem como é apoiado pelo pianista Robert Glasper. O acelerado fluxo do Kendrick Lamar caminha sob poesias faladas e frases repetitivas.

As letras não são tão compreensivas, mas podemos notar que possui um senso de auto respeito. Embora frases com temática sexual como “este pau não é livre” sejam repetidas várias vezes, é um interlúdio definitivamente bem-sucedido. “Kinga Kunta” é certamente uma das minhas faixas favoritas do álbum, principalmente por causa da forte batida e do pesado baixo funky. Ela me lembra algumas canções de rap dos anos 80 e apresenta fortes influência do hip hop da Costa Oeste e do G-Funk. Ademais, há amostras perturbadoras de “Get Nekkid” (Mausberg), elementos de “The Payback” (James Brown), interpolações de “We Want the Funk” (Ahmad Lewis) e letras de “Smooth Criminal” (Michael Jackson). Liricamente, temos um personagem chamado Rei Kunta que está chateado com as pessoas que estão sentadas no seu trono. Lamar começa com um discurso retórico, abordando outros rappers que tentaram tomar o seu lugar enquanto passou dois anos longe da indústria. O título é uma referência ao escravo rebelde Kunta Kinte, personagem base retratado no principal romance de Alex Haley. Semelhante a Kunta, Lamar sente que está sendo acorrentado e paralisado por outras pessoas da indústria – resultante de sua ausência na mídia. “Institutionalized” nos remete aos seus dois primeiros álbuns, embora siga o estilo funk predominante do repertório.

Produzida por Tommy Black, conta uma história frustrante de Compton, alternando entre personagens para representar determinadas lutas. Quando Lamar fecha seu primeiro verso, ele introduz o neo soul de Bilal, que canta o refrão. Essa estranha frase é cantada a partir da perspectiva da avó do Kendrick Lamar. No geral, ele fala sobre sua educação e como a mentalidade que desenvolveu na infância transcendeu para sua vida adulta de fama repentina. Assim como a faixa anterior, “These Walls” também apresenta Bilal e Anna Wise, além do talentoso Thundercat. É uma canção narcótica, onde Lamar fornece insinuações sexuais cimentadas através de versos poéticos. Ele apresenta uma metáfora complexa ao comparar implicitamente paredes literais com as paredes da vagina de uma mulher. O rapper usa essa base para explorar contrastes entre o sexo e a fama. Ele também justapõe o conceito de paredes vaginais com as paredes da prisão do homem que matou um dos seus melhores amigos de infância. De fato, as letras são muito mais profundas e complexas do que possam parecer. O estalar de dedos, o maravilhoso riff de saxofone e o piano, bem como os gemidos femininos e a sensualidade dos vocais, fazem de “These Walls” uma das produções mais fortes do álbum. 

A próxima faixa, apenas intitulada “u”, é provavelmente uma das mais obscuras. É a canção oposta da otimista “i” – penúltima faixa do álbum vencedora de 2 Grammy Awards. “u” o encontra gritando em um quarto de hotel, embriagado e considerando o suicídio. É uma música deprimente com letras dolorosas, onde ele está no seu estado mais vulnerável. Uma sensação de desgraça surge aqui. Muitas vezes, ouvimos ele dizer em meio a lágrimas nos olhos: “Amar você é complicado”. O saxofone, a pausa onde o serviço de limpeza bate na porta do hotel, as harmonias de fundo, o tilintar de garrafas de cerveja e os ruídos, complementam os lamentos agudos da música. “Alright” é o acompanhamento perfeito para “u” – o objetivo é tentar se convencer de que, apesar dos problemas pessoais, tudo vai ficar bem. Toda a dor das letras de “u” é deslocada por ele e transformada em uma energia completamente otimista. Acompanhada pelo saxofone, “Alright” é poderosamente festiva e apresenta vocais sem créditos de Pharrell Williams no refrão. Inspirada por uma viagem à África do Sul, local onde testemunhou problemas sociais, Lamar recita letras como: “Minha vida toda eu tive que lutar / Mas se Deus é por nós, então, nós ficaremos bem”.

O interlúdio “For Sale?” apresenta um conceito que envolve tentação. Ele é contado a partir do ponto de vista de “Lucy” tentando seduzi-lo. Lamar faz alusões a Lúcifer enquanto aponta os aspectos negativos de uma carreira no hip hop – ele cospe versos que enumeram as coisas que Lúcifer iria lhe oferecer para que caia na tentação. Sonoramente, “For Sale?” inicia com Lamar tomando fôlego e respirando ofegante, conforme é acompanhado por seus habituais vocalistas: Bilal, Taz Arnold e SZA. Aqui, há sinos eletrônicos, piano, saxofone e uma vibe mais ensolarada. Knxwledge, o beatmaker de Los Angeles, foi o responsável pela produção de “Momma”. É um neo soul influenciado pelo hip hop da Costa Oeste, conduzido por amostras de “Wishful Thinkin’” (Sly and the Family Stone). Novamente, Bilal fornece vocais como contraponto, assim como Lalah Hathaway auxilia com suaves tons de apoio. “Momma” tem uma batida sólida e fala sobre voltar às suas raízes. Lamar se concentra na ideia de voltar para casa, que diz respeito à sua residência em Compton com sua mãe. Ele descreve essa viagem a partir de um olhar de gratidão com o quão longe ele chegou na busca por seu sonho.

Na politicamente carregada “Hoods Politics”, ele justapõe a política do governo federal e da hierarquia social no bairro de Compton. Ele percebe que há muitas coisas para se preocupar, porque pessoas estão morrendo muito jovens devido à violência das gangues. Ele ainda acrescenta que, muitas vezes, o governo faz coisas até piores que as gangues de ruas. O rapper argumenta que grupos políticos afetam os americanos de várias formas, ao contrário das pessoas pobres do seu bairro. Lamar também aproveita para atacar a hipocrisia, tanto da crítica quanto do consumidor. Em “Hood Politics”, você pode ouvir um dedilhar de guitarra e uma simples bateria que, posteriormente, são precedidos por batidas estranhamente saltitantes. Influenciada por amostras de Sufjan Stevens, a batida fornece um cenário perfeito para os versos do Kendrick Lamar. Em “How Much a Dollar Cost”, ele conta uma história que envolve a interação entre ele e um homem sem-teto. Durante o diálogo, o mendigo pede um dólar a ele. Isto nos leva para a questão filosófica do título de quanto realmente custa um dólar. Lamar, pensando que o homem iria gastar com álcool ou qualquer outra droga, não dá o dinheiro. Porém, o homem revela que ele é, na verdade, uma imagem de Deus.

O pedido de um dólar foi um teste para ver se ele realmente se preocupa com os pobres – mas ele se arrepende na esperança de receber o perdão de Deus. É uma metáfora espiritual que se move hipnoticamente através de um encontro com o Criador. Chaves de piano e um pandeiro produzem a abertura. James Fauntleroy, conhecido por seu trabalho como compositor, fornece vibrações de R&B e emerge sob tons angelicais no refrão. Ronald Isley também faz uma excelente aparição no final e contribui com sua influência soul. “Complexion (A Zulu Love)” também possui uma mensagem importante: não devemos julgar uns aos outros pela cor da pele. Lamar faz alusão à escravidão nos Estados Unidos enquanto imagina a si mesmo como um escravo colhendo algodão. Para todas as referências ao passado, ele decide que não tem que deixar a história ditar o futuro. Por isso, tenta educar a sociedade sobre padrões de beleza, mas especificamente o colorismo na comunidade negra. Rhapsody, a rapper convidada, também destaca-se e fala em nome das mulheres. Ela desafia aquelas com baixa autoestima a ter mais fé em sua beleza, cabelos crespos, quadris cheios de curvas e pele mais escura. O segundo single, “The Blacker the Berry”, apresenta vocais de Assassin, artista jamaicano de dancehall.

É uma música racialmente carregada com letras que celebram a herança afro-americana de Kendrick Lamar. Também contém um significado profundo sobre os perigos da hipocrisia e do racismo. “The Blacker the Berry” é mais agressiva e incisiva que o restante do repertório: uma música com ritmo enlouquecer, tambores contundentes e linhas de baixo pesadas. Lamar começou a escrevê-la quando viu a notícia da morte de Trayvon Martin, afro-americano de 17 anos assassinado por um segurança de condomínio. O rapper está realmente irritado e farto com a sociedade. As letras agressivas verbalizam sua raiva reprimida, relativa ao bem-estar da comunidade negra. Em seguida, “You Ain’t Gotta Lie (Momma Said)” praticamente te leva de volta para o hip hop da década de 90. Sob melodias frias e batidas old-school, Lamar começa o primeiro verso a partir do ponto de vista de sua mãe. Ele reconhece que voltar a seus antigos caminhos é muito difícil, uma vez que ele foi recompensado com dinheiro e fama. O rapper transmite a ideia de que no seu regresso a Compton, ele não retrata o comportamento estereotipado dos principais artistas de hip hop. Ele quer permanecer fiel a si mesmo e não corresponder a uma moda passageira apenas para ser aceito. Lições dadas por sua mãe e questões do passado são revistas em sua execução.

Inesperadamente, a nova versão de “i” acabou fazendo sentido dentro do seu contexto. Possui mais de 5 minutos e apresenta uma nova introdução estrelada por um locutor não identificado. Tomando uma abordagem mais otimista, ela é inspirada pelo funk e soul, e mostra um estado mental completamente diferente de “u”. É como um raio de sol no meio da escuridão da outra faixa. A instrumentação ao vivo – com tambores rítmicos e riffs de guitarra – alivia o ambiente. Ao longo de “i”, Lamar afirma que, embora haja caos no mundo e batalhas constantes, “ele ama ele mesmo”. A última faixa, “Mortal Man”, possui mais de 12 minutos de duração. Lamar estabelece e pondera tudo o que ele desenrolou ao longo do álbum. Perspectivas históricas e modernas são examinadas com o máximo de cuidado, assim como sua relação com a fama. Lamar usa essa questão para ramificar temas como liderança, lealdade e incertezas. Ele questiona sua mortalidade perguntando se poderia ser vítima dos mesmos males que derrubaram seus heróis. O rapper se comparada a líderes do movimento negro, como Nelson Mandela, Huey Newton, Martin Luther King Jr., Malcolm X e Michael Jackson. Ele empurra a mensagem de fortalecimento da mesma forma que estes homens fizeram, e quer saber se não será abandonado por seus fãs e seguidores. 

Quando a música termina, Lamar apresenta uma entrevista fictícia entre ele e seu maior ídolo, o falecido Tupac Shakur. Essa conversa abrange questões vitais, como a luta pela fama, opressão, frustrações, desigualdade social e o futuro dos negros nos Estados Unidos. Embora seja estranha e emocional, a conversa artisticamente criada entre os dois é um momento gratificante para o hip hop. Fiquei surpreso com o quão natural a conversa soou, uma vez que só se tornou possível porque Kendrick Lamar pegou emprestado uma antiga entrevista de 1994. Sonoramente, “Mortal Man” possui tons jazzísticos, saxofone, piano e um baixo extremamente poderoso. Depois dessa análise faixa-a-faixa, posso concluir que “To Pimp a Butterfly” é um dos álbuns de hip hop mais criativos, inteligentes, desafiantes e memoráveis da história. É uma verdadeira obra-prima! Quase todas as músicas são surpreendentes por conta própria. E juntas elas formam um pacote incrivelmente coeso. Artisticamente, Lamar foi capaz de fazer um álbum socialmente poderoso. Por causa dos comentários sociais, ele serve como uma faísca para o empoderamento negro. “To Pimp a Butterfly” diz ao mundo que os negros estão aqui para ficar e sempre buscarão a igualdade. Kendrick Lamar está pavimentando cada vez mais o seu caminho para se tornar um dos maiores artistas de hip hop de todos os tempos.

SCORE: 93

Review: Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly (2015) was last modified: junho 4th, 2023 by Nate Schlosser
16 de março de 2015

Review: Madonna – Rebel Heart (2015)

Escrito por Nate Schlosser
Review: Madonna – Rebel Heart (2015)

“Rebel Heart” pode ser considerado o melhor álbum da Madonna desde o “Confessions On a Dance Floor” (2005), lançado há uma década.

Em novembro de 2014, um hacker invadiu o computador da Madonna e espalhou pela internet um rascunho do que poderia ser o seu novo álbum. Em seguida, ela lançou seis novas canções na iTunes Store e pediu aos fãs que esperassem pelo projeto completo. Após concluir sua última turnê, Madonna começou a trabalhar ao lado de vários músicos talentosos, incluindo Diplo, Avicii e Kanye West. Mas ao trabalhar com um alto número de colaboradores, ela enfrentou problemas para manter um som coeso. Entretanto, “Rebel Heart” pode ser considerado o seu melhor material desde o “Confessions On a Dance Floor” (2005), lançado há uma década. Tematicamente, ele representa duas facetas diferentes de si mesma: um lado romântico e outro rebelde. O primeiro trata de amores perdidos enquanto o segundo mostra uma Madonna libidinosa e autoconfiante. Os temas nasceram e cresceram organicamente durante as sessões de gravação e escrita. Algumas canções são autobiográficas em sua natureza, ao passo que outras são mais introspectivas – musicalmente, é um dos seus trabalhos mais versáteis. O álbum começa de forma promissora com “Living for Love”, produzida por Diplo e Ariel Rechtshaid. Aqui, Madonna apresenta o primeiro de muitos momentos auto referenciais. 

É uma maravilhosa canção dance e house, onde não há nada insolente, sexual ou arrogante nas letras – o conteúdo lírico é suavemente edificante. Contém uma percussão profunda e um piano old-school em sua instrumentação, mas se move de forma fresca e contemporânea. Além disso, “Living for Love” ainda possui um excelente coral gospel que nos remete ligeiramente ao passado da Madonna. Aparentemente, ela escreveu as letras com base em um rompimento amoroso – um grito de guerra de um espírito independente. Durante as fases iniciais do álbum, Madonna foi incentivada por seu gerente a trabalhar com Avicii e sua equipe de compositores. Juntos, eles criaram sete músicas, incluindo a fascinante “Devil Pray”. Ela começa com o som de uma guitarra acústica, mas gradualmente fornece batidas eletrônicas. Dessa vez, Madge fala sobre suas experiências com drogas e a busca de espiritualidade. Dito isto, a música também aborda temas como pecado, tentação e o desejo de salvação. Liricamente é uma típica canção da Madonna, afinal trabalha em cima de diversas referências Cristãs. O refrão e a melodia são definitivamente um charme a parte – um synth-pop com elementos de country e folk.

Madonna lista todas as drogas que poderia experimentar, mas admite que essa não é a maneira de ser salva. “Ghosttown” é uma balada pop inspirada pela imagem de um apocalipse e uma cidade destruída. Aqui, Madge detalha como sobreviventes continuam suas vidas, tendo como único apoio o amor entre eles. O canadense Billboard estabeleceu uma paisagem sonora desolada formada por acordes de órgãos e batidas sintetizadas. Ela começa lentamente suave, mas depois explode de forma cativante no refrão. Vocalmente, Madonna está no seu melhor, apresentando-se de forma nítida e sem restrições. Em “Unapologetic Bitch”, ela usou uma produção influenciada por sons caribenhos. Escrita e produzida pelo Diplo, essa confecção eletrônica possui sintetizadores crescentes, batidas de reggae, vibrações de dancehall e um rufar constante. Madonna canta sobre um término de namoro que levou tempo para esquecer. Dessa forma, ela tenta fazer uma declaração mais abrangente de independência incondicional, embora utilizando termos bastante atrevidos. Diplo usou cada buzina que conseguiu, juntamente com quebras de tambores e sirenes. A quinta faixa deixa o ouvinte curioso a ponto de começar a questionar se os Illuminati realmente existem.

Co-produzida pelo Kanye West, “Illuminati” faz várias referências às teorias de conspiração – é uma resposta para as pessoas que dizem que ela está associada aos Illuminati. Ela cita nomes de outras celebridades que também já foram acusadas de fazer parte da sociedade secreta, incluindo Jay-Z, Beyoncé, Rihanna, Kanye West, Steve Jobs e Bill Gates. Além disso, ela canta sobre todo o imaginário associado ao termo, como pirâmides, triângulos, feitiçaria e câmaras do Egito. Sonoramente, é um dance-pop repetitivo com sintetizadores,  guitarras acústicas e um gancho refrigerado e obscuro. “Bitch I’m Madonna”, com Nicki Minaj, é um EDM com tom nasal onde ela fala continuamente o porquê ela é a “Madonna”. Madge chegou a defender o uso abundante da palavra “bitch”, explicando que, dependendo do contexto, seu significado não é necessariamente vulgar. É uma música que não faz jus ao título provocador e possui altos e baixos. Ela peca principalmente pela confusão barulhenta gerada ao tentar desdobrar-se em vários coisas. Os sons de trap emparelhados com o verso frenético da Nicki Minaj é o maior acerto ao lado da repartição de dubstep. “Hold Tight”, por sua vez, é um número midtempo com tambores militares, bateria pulsante, teclados atmosféricos e floreios eletrônicos.

Liricamente, fala sobre o amor triunfar durante os momentos mais difíceis. Apesar da bela arquitetura sonora, o lirismo é básico e não conta uma grande história. “Joan of Arc” marca um momento autobiográfico especialmente genuíno e sincero; uma peça graciosa que mostra que, mesmo você sendo uma lenda do pop, ainda pode se machucar. Madonna se compara a Joana d’Arc, heroína histórica que liderou o exército francês antes de morrer incendiada. Movida pelo dedilhado de uma guitarra, “Joan of Arc” consegue se sobressair principalmente pela metáfora e produção. Madonna canta sobre a negatividade da mídia e como isso a machuca; ela confessa o quanto as palavras de ódio a afetam, mostrando um lado mais vulnerável que nem sempre conseguimos enxergar. Em “Iconic”, Madonna colabora com Chance the Rapper e o boxeador Mike Tyson. Quem pensa que o ex-campeão mundial de boxe embarcou em uma carreira musical ficará desapontado, pois sua contribuição é formada apenas por falas proclamadas sob fortes aplausos. Trata-se do reconhecimento da Madonna em seu status de ícone, onde ela canta letras motivacionais sobre nunca desistir.

Sonoramente, possui batidas de house e hip hop, além de sintetizadores pulsantes que poderiam soar um desastre no papel, mas funcionam surpreendentemente bem. “HeartBreakCity” é uma balada sincera sobre um devastador término de namoro. Aparentemente, o seu ex-namorado só queria atenção e fama para si próprio. Ela é construída principalmente por acordes de piano e um registro vocal mais profundo. Mas embora seja uma balada relacionável, não tem o mesmo brilho das melhoras faixas do repertório. “Body Shop” é relaxante e gentil, mas também estranha e desarticulada. Os versos são construídos em torno de bandolins e palmas, mas a produção soa inacabada e parece que há uma desconexão entre a mensagem e melodia. Liricamente, Madonna utiliza uma metáfora esquisita ao comparar seu amor a um automóvel que necessita de reparos. Da mesma forma, “Holy Water” é um retrocesso para ela – uma canção sexy e igualmente bizarra. Sexo sempre foi um dos seus temas favoritos, especialmente quando anda lado a lado com a religião. Ela executa uma espécie de batismo erótico totalmente desnecessário, firmado por gemidos e uma pergunta central: “Não tem gosto de água benta?”.

A produção, que teve mão de Kanye West, não consegue deixar uma impressão duradoura e nos remete à “I’m a Slave 4 U” da Britney Spears. Estranhamente na ponte, há uma interjeição com “Vogue”. Felizmente, a produção elegante de “Inside Out” funciona muito melhor. Às vezes, ela soa sexual e outras vezes sincera e comovente. É uma peça sonoramente desolada com vocais flutuando sob sintetizadores de Mike Dean. Dito isto, também permanece contida com acordes de piano e algumas cordas fazendo o serviço pesado. A última faixa, “Wash All Over Me”, fala sobre aceitar o destino e as experiências negativas que passamos na vida. Sob um piano barroco, ela aborda a injustiça no mundo e como podemos enfrentar as coisas que não dá para mudar. É uma canção arejada, fluída e alinhada em seus elementos sinfônicos. Ademais, é moderada nos sintetizadores e impulsionada por um apoio gospel. Mesmo com suas falhas – que não são poucas -, há algo de inegavelmente cativante no “Rebel Heart”. É um projeto que luta contra as piadas e o preconceito acerca da idade da Madonna. Mas até mesmo as canções mais fracas são melhores do que boa parte do “Hard Candy” (2008) e “MDNA” (2012).

SCORE: 51

Review: Madonna – Rebel Heart (2015) was last modified: novembro 15th, 2022 by Nate Schlosser
7 de março de 2015
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