O terceiro álbum de Gustavo Bustermann exala uma vulnerabilidade sensual.
Arrisco-me a dizer que Gustavo Bustermann entende do assunto. O cantor e compositor paulista reúne todas as qualidades que se espera de um ícone LGBT moderno e a sensatez de reconhecer o quanto esse tipo de título é ultrapassado e, no fim das contas, sem sentido. Basta lhe dar uma oportunidade para que ele rapidamente convença você disso. Sua humildade poderia parecer performática e cínica, não fosse ela tão genuína. Ser bissexual é parte integrante e visível da arte de Gustavo Bustermann. Redlight, seu terceiro álbum de estúdio, é mais bem descrito por termos raramente associados a artistas masculinos: delicadeza, transparência e vulnerabilidade. Ele canta sobre experiências comuns entre jovens homossexuais, mas que ainda soam profundamente transgressoras em um contexto mais amplo.
A terceira faixa, “Location”, nasceu da experiência de entrar escondido no Grindr e se envolver com homens mais velhos, enquanto “Like a Dream” captura a experiência de ser passivo pela primeira vez em toda a sua agonia e êxtase. O tema pode atrair ouvintes, mas revela menos do que aquilo que permanece nas entrelinhas. “Deixa eu te sentir por dentro / Me fode devagar, depois me puxa pra perto”, ele canta. Bustermann trabalhou com a mesma equipe e a mesma paleta sonora que definiram Blueprint (2022): um pop de andamento moderado e ricamente matizado. Embora haja toques bem-vindos de fontes inesperadas — como o brilho nostálgico de “What I Never Said”, a grandiosidade da balada “Like a Dream” e o ímpeto épico do electropop de “Bisexual” — o álbum oscila entre momentos de impacto genuíno e outros menos inspirados. Mas, assim como seus ídolos — que vão de Paul McCartney a Katy Perry —, Gustavo Bustermann escolhe a individualidade em vez da acessibilidade.
Ao longo do repertório, ele evita a tristeza típica dos álbuns de término de relacionamento. Em vez disso, concentra-se no processo de autodescoberta que pode surgir depois de um coração partido. “Back Seat of the Car”, o momento mais sensual do projeto, mergulha no sexo casual impulsionado pelo desejo, girando em torno de um dilema clássico da experiência homossexual: eu quero apenas transar e ir embora. Ele provoca, flerta e brinca até causar um leve constrangimento alheio, enquanto a música avança sobre uma batida lenta de R&B. Mas, ironicamente, ele lamenta que o garoto que conheceu em uma única noite tenha ido “embora, sem número, sem sinal”. Quando assume um tom mais melancólico no primeiro single, “Red”, ecos de um grande hino permanecem rondando a canção como um papel de parede descascando. Esses elementos sabotam deliberadamente qualquer sensação de triunfo, funcionando como um lembrete amargo de que nem mesmo uma música pop é capaz de curar as piores dores emocionais.
“Red” captura exatamente o instante em que a tristeza começa a ceder lugar à clareza e a solidão se transforma em autoconfiança. Esse mesmo espírito impulsiona também suas escolhas estéticas mais ousadas. Redlight parece conectado a uma camada ainda mais peculiar do underground pop. É possível ouvir ecos de música eletrônica dissociativa, de uma estética quase amorfa e, ao mesmo tempo, de um calor humano característico. A nebulosa “Woods”, envolta por cordas, se aproxima da liberdade necessária para explorar seu lado mais estranho e sombrio. Aqui, ele imagina uma paisagem naturista onde as “pessoas se sentem livres para serem elas mesmas”. Um lugar tão mágico que ele não quer mais ir embora e onde finalmente encontra paz. Gustavo Bustermann inicia a ousada “Sexy Body” em um clima brincalhão, provocando e flertando com seu parceiro. Ele se torna objeto de desejo, e isso lhe confere o controle. “Nos tocamos e nos beijamos a noite toda, uma química perfeita”, provoca em “Sexy Body”. “Eu nunca soube que o desejo podia bater tão violentamente”.
Poucos segundos depois, porém, perde o equilíbrio: o homem mais velho que procurou para uma aventura inédita talvez não seja tão fácil de manipular no calor do momento. O pré-refrão de “Bisexual” é um gemido nervoso — “Fudido, mas imploro por mais / Essa fome que não consigo ignorar” —, canta ele, pouco antes de confessar: “Sou apenas um tolo safado, oh baby, sou tão cruel”. Há uma tensão notável nesses momentos, e Redlight seria exaustivo se cada faixa fosse construída em torno desse mesmo tipo de experiência. O álbum também oferece prazeres menos complexos: canções mais simples, mas ainda incrivelmente ternas. Bustermann transita com naturalidade pelo desejo. “If Only You Knew”, por exemplo, transmite uma sensação eufórica e carnal graças ao diálogo entre seus versos e o refrão. Enquanto isso, o jazz-rap de “Chains” o encontra completamente desinibido e entregue à própria sexualidade: “Primeira vez com um homem, é, o que é isso? / Tenho transado sem parar por quase uma semana”, ele cospe.
Gustavo Bustermann também demonstra um talento especial para construir imagens belas e concisas. A sensualidade de Redlight cria um contraste interessante com o som conservador de Blueprint (2022). É um álbum que raramente ultrapassa uma certa aparência de perfeição e limpeza. O compositor brasileiro assume o papel de um porta-voz simpático, safado, acessível e amplamente aceitável para uma comunidade ainda pouco representada. Em um momento em que o pop comercial talvez seja mais calculado do que nunca — moldado por grandes gravadoras obcecadas por playlists e pela chamada “streamabilidade” — seria fácil imaginar que preservar essa imagem familiar e segura fosse a escolha mais recompensadora. Em compensação, é muito mais divertido acompanhá-lo enquanto abandona o caminho mais fácil para construir uma identidade artística verdadeiramente própria.
