Drake – ICEMAN (2026)

by Gustavo Bustermann

Drake tenta recuperar o controle da narrativa, mas continua preso às próprias obsessões.

Poucos artistas na história recente do hip-hop enfrentaram um revés público tão devastador quanto Drake após sua disputa com Kendrick Lamar. Derrotado em uma batalha que extrapolou os limites do rap e se transformou em um fenômeno cultural, o canadense chega a 2026 tentando reconstruir sua imagem através de uma ambiciosa trilogia de álbuns. O primeiro capítulo dessa empreitada é ICEMAN, um projeto que busca recuperar sua autoridade artística e responder aos ataques sofridos nos últimos anos. O problema é que Drake parece incapaz de abandonar os mesmos temas que o acompanham há quase duas décadas.

Ao longo de sua carreira, o rapper sempre girou em torno de um pequeno conjunto de obsessões: os efeitos corrosivos da fama, as supostas traições de pessoas próximas e seus intermináveis conflitos emocionais. Essas ideias já renderam grandes músicas no passado, mas em ICEMAN elas reaparecem sem qualquer evolução significativa, transformando o álbum em uma longa sequência de reclamações, justificativas e ressentimentos. A própria concepção da nova trilogia reforça essa característica. Cada álbum representa uma faceta distinta de sua personalidade artística: o Drake ressentido, o romântico incurável e o astro das pistas de dança. Em vez de condensar suas ideias em uma declaração direta e contundente, o artista opta novamente pela prolixidade. O resultado é mais uma avalanche de pensamentos dispersos, como se o público estivesse ouvindo horas de desabafos acumulados em um aplicativo de notas.

A capa de ICEMAN, que remete à famosa luva de lantejoulas de Michael Jackson, já sugere uma dificuldade em encontrar novos caminhos. Em vez de refletir sobre a derrota ou apresentar alguma mudança de perspectiva, Drake continua interpretando exatamente o mesmo personagem que construiu ao longo dos anos: alguém incapaz de aceitar plenamente seus fracassos. Talvez essa seja justamente a maior decepção do disco. Durante boa parte da década passada, o rapper conseguiu transformar inseguranças e contradições em entretenimento. Havia humor, autodepreciação e até certa leveza em suas lamentações. Em ICEMAN, porém, quase nada disso sobrevive. O que resta é uma coleção de músicas marcadas por autopiedade e ressentimento, frequentemente sem o carisma necessário para tornar esses sentimentos interessantes.

Grande parte do álbum é consumida por discussões sobre números de streaming, disputas de bastidores e ressentimentos corporativos. Faixas como “Make Them Pay”, “Firm Friends” e “Dust” retornam repetidamente a essas questões, criando a sensação de que Drake está preso em um ciclo de reclamações que interessa cada vez menos ao público. Mesmo quando menciona sua ação judicial contra a Universal Music Group, posteriormente arquivada, o tom é mais defensivo do que revelador. O problema não é apenas a repetição dos temas, mas a falta de relevância deles. Em diversos momentos, o rapper parece tão concentrado em pequenas vinganças pessoais que até mesmo seus fãs mais dedicados podem ter dificuldade em acompanhar a importância dos alvos escolhidos. Referências a executivos, estratégias de marketing, investimentos financeiros e rivalidades extremamente específicas ocupam espaço que poderia ter sido utilizado para explorar questões mais universais.

Quando tenta abordar assuntos maiores, o resultado raramente convence. Algumas linhas sugerem que Drake está prestes a tocar em temas políticos ou sociais mais complexos, mas essas ideias logo são abandonadas para abrir espaço a novas provocações ou reclamações pessoais. Tudo parece ter o mesmo peso dentro de sua narrativa, independentemente da importância real do assunto. Enquanto isso, a produção musical também demonstra sinais de desgaste. Durante muitos anos, o trabalho de Noah “40” Shebib foi fundamental para criar a atmosfera sofisticada dos discos de Drake. Em ICEMAN, porém, sua presença é reduzida, e isso se reflete diretamente no resultado final. As bases sonoras soam genéricas, dominadas por batidas trap pouco inspiradas, mudanças de andamento previsíveis e arranjos que raramente deixam uma impressão duradoura. Mesmo faixas produzidas por nomes consagrados do gênero parecem estranhamente sem energia.

A sombra de Kendrick Lamar paira sobre o álbum inteiro. Drake continua lançando indiretas ao rival, retomando discussões que parecem já encerradas para o restante do mundo. O problema é que essas provocações chegam tarde demais. Em uma batalha de rap, certos discursos funcionam antes do confronto; depois da derrota, soam apenas como ecos de argumentos que perderam o momento adequado. Além disso, a agressividade nunca foi o ponto forte do canadense. Sem a presença constante de colaboradores que costumavam complementar suas limitações, suas tentativas de intimidação frequentemente resultam em versos estranhos, simplórios e pouco impactantes. Em vários momentos, suas rimas carecem de criatividade e parecem incapazes de sustentar o tom ameaçador que ele tenta adotar.

Mas o aspecto mais frustrante de ICEMAN talvez seja o enorme potencial desperdiçado. Independentemente das preferências dos fãs, a vitória de Kendrick Lamar tornou-se parte da história do hip-hop. Diante disso, Drake possuía uma oportunidade rara: transformar a experiência da derrota em matéria-prima artística. Pouquíssimos artistas tiveram a chance de refletir publicamente sobre uma queda tão grande, acompanhada em tempo real por milhões de pessoas. Existem breves momentos em que o álbum parece caminhar nessa direção. Na faixa de abertura, “Make Them Cry”, Drake admite que uma parte dele morreu em 2024. Ele menciona o constrangimento de ouvir conselhos sobre como deveria reagir à derrota, confessa receio de enfrentar certas questões emocionais e oferece alguns vislumbres genuínos de vulnerabilidade. Em uma das passagens mais engraçadas do repertório, revela que não consegue levar sua terapeuta totalmente a sério porque a considera atraente.

São justamente esses momentos de desconforto e honestidade que tornam evidente o álbum que ICEMAN poderia ter sido. No auge de sua carreira, Drake se destacou por expor inseguranças e situações constrangedoras de maneira quase única dentro do rap mainstream. Sua disposição para parecer ridículo às vezes produzia músicas fascinantes, capazes de desconcertar tanto admiradores quanto críticos. Havia algo intrigante em vê-lo desafiar os códigos tradicionais de masculinidade do gênero. Essa característica praticamente desapareceu aqui. Em vez de abraçar suas contradições e explorar o significado de sua derrota, Drake prefere insistir em uma postura defensiva que já não convence. O resultado é um álbum que passa a sensação de oportunidade perdida: um artista diante do momento mais interessante de sua trajetória recente, mas incapaz de enxergá-lo.

No encerramento de ICEMAN, ele lamenta o desaparecimento de sua antiga inocência e sugere que aquela versão de si mesmo jamais retornará. A frase soa menos como uma reflexão e mais como um aviso. Drake parece determinado a continuar seguindo exatamente o mesmo caminho, produzindo o mesmo tipo de rap melancólico e ressentido que, neste momento, já não parece satisfazer nem mesmo seu principal interessado: ele próprio.

SCORE: 48

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