PACKS – Melt the Honey (2024)

by Leo Ashford

O terceiro LP da banda de Toronto apresenta composições cruas e irrestritas.

A vocalista e compositora do PACKS, Madeline Link, encara de frente tanto a alegria quanto o desgaste emocional em Melt the Honey, o terceiro LP da banda canadense. O álbum foi desenvolvido durante uma viagem de duas semanas ao centro-leste do México, uma experiência que acabou moldando diretamente sua identidade. Depois de conhecer o país durante uma residência artística em 2020, Link acreditou que uma mudança de cenário poderia inspirar uma nova abordagem criativa. E estava certa. Melt the Honey possui uma qualidade fragmentada e tátil, mas também é uma audição surpreendentemente acessível e cativante. Trata-se de um rock nebuloso e descontraído, repleto de melodias grudentas e colapsos psicodélicos ocasionais. Como tantos jovens na faixa dos vinte anos, Link deixou a cidade e voltou a morar com os pais no início de 2020.

Confinada nos subúrbios de Ottawa, onde cresceu, passou aquele longo e angustiante mês de abril escrevendo e gravando músicas compulsivamente para afastar a ansiedade. Um ano depois, o álbum de estreia do PACKS, o enxuto “Take the Cake”, confirmou seu talento. Embora a banda tenha surgido inicialmente como um projeto solo, Link gradualmente incorporou Dexter Nash (guitarra), Noah O’Neil (baixo) e Shane Hooper (bateria) ao processo criativo. A fluidez e a circulação de ideias entre os integrantes são claramente perceptíveis em Melt the Honey, resultado de uma química cultivada deliberadamente ao longo das gravações. Link cria músicas lo-fi preguiçosamente viciantes, tão propensas a buscar inspiração nos clássicos literários do século XIX quanto em experiências pessoais. Ela trabalha rapidamente e prefere timbres de guitarra ásperos e quebradiços, mais interessados em transmitir personalidade do que virtuosismo.

Melt the Honey é discretamente eclético e iluminado pelo brilho de um novo amor. Gravado de forma independente com equipamento mínimo em uma excêntrica casa comunitária próxima a Xalapa, no México, o álbum vibra com a energia de uma compositora peculiar construindo seu próprio refúgio criativo. As músicas transbordam de ideias, abrindo espaço para conversas casuais entre os integrantes e os sons da vida selvagem ao redor. Ainda assim, Link — que se apaixonou pouco antes de iniciar o projeto — injeta uma ternura inesperada nessas composições excêntricas. Com seu órgão radiante e uma melodia agradavelmente entorpecida, “Honey” captura a euforia confusa de um relacionamento que finalmente parece ser “aquilo que eu queria o tempo todo”.

O refrão da faixa-título — “Vamos, querido / Derreta o mel” — é cantado por Link com uma sugestividade divertida. A imagem remete ao mel que ela consumia enquanto vivia com seu parceiro em uma cidade costeira do Chile. Já “HFCS”, inspirada no xarope de milho rico em frutose, assume a forma de um pop açucarado, enquanto a delicada e lânguida “Take Care” parece refletir sobre a capacidade de tratar outra pessoa com mais gentileza do que a si mesmo. “Não, não sei se isso vai funcionar”, ela admite em “HFCS”, entre risadas, antes de ser imediatamente arrastada para uma locomotiva constante de indie rock. A faixa avança rapidamente através de reflexões sobre risco, prazer imediato e os motivos que levam as pessoas a insistirem em hábitos autodestrutivos. O pandeiro a acompanha durante todo o percurso, delineando a música com uma doçura previsível e quase enjoativa.

Em uma das canções mais dinâmicas do álbum, “Pearly Whites”, Link adota um vocal arrastado e rouco, sustentando uma sibilância áspera enquanto as guitarras se distorcem e se desfazem ao seu redor. Sua curiosidade genuína sobre a experiência humana permeia toda a discografia do PACKS. “Paige Machine” segue essa mesma linha, inspirada por uma história envolvendo Mark Twain e os perigos de aperfeiçoar algo até destruí-lo completamente. A música começa com o som de um trovão, sugerindo uma tempestade prestes a chegar. A letra é direta, como alguém pressionando uma ferida para descobrir exatamente onde dói: “Só funcionará uma vez agora / Porque você desmontou / E nesta nova configuração / Ficou estragada, agora você tem que reiniciar”. A canção funciona quase como uma declaração de princípios para o PACKS: tocar as músicas, deixá-las respirar e confiar no instinto acima do excesso de refinamento.

O título faz referência ao Paige Compositor, uma máquina de impressão fracassada do século XIX criada por James W. Paige. Financiado por Mark Twain, o projeto acabou afundando sob o peso de sua própria complexidade e do perfeccionismo obsessivo de seu inventor. Para o PACKS, a história funciona simultaneamente como advertência e filosofia criativa: pensar demais pode ser o caminho mais rápido para a estagnação. As melhores músicas do grupo apresentam refrões memoráveis com a mesma despreocupação de alguém que parece não estar tentando impressionar ninguém. Isso aparece na psicodelia desafinada de “Trippin”, que evoca a névoa preguiçosa de Beck na era Mellow Gold (1994), e também na maneira como Link enfatiza as imperfeições de sua voz com um charme tipicamente noventista. Está presente ainda em sua tendência de repetir frases até que elas percam o significado e se transformem em puro som.

Melt the Honey está repleto de pequenas recompensas para quem se dispõe a mergulhar em seus detalhes. Algumas músicas se movem lentamente, viscosas como o mel sugerido pelo título, enquanto outras assumem a intensidade e a euforia de um primeiro amor. As gravações de campo e os momentos de vulnerabilidade ajudam a situar o álbum em um ambiente úmido, vivo e acolhedor, como se o ouvinte estivesse acompanhando a banda em meio à floresta tropical de Veracruz. A cada lançamento, o PACKS desenvolve uma identidade mais definida. E Madeline Link se consolida como uma compositora de voz própria, disposta a correr riscos sem jamais perder de vista o coração de sua música.

SCORE: 73

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