Pond – Terrestrials (2026)

by Leo Ashford

Em Terrestrials, Pond amplia suas ambições temáticas, mas permanece preso ao próprio passado.

Poucas bandas do rock psicodélico contemporâneo demonstram uma produtividade tão impressionante quanto o Pond. Desde o fim dos anos 2000, o grupo australiano construiu uma discografia extensa e consistente, enquanto seus integrantes paralelamente se envolveram em inúmeros projetos solo e colaborações. A conexão com o universo do Tame Impala — especialmente através de Jay Watson e Joe Ryan — ajudou a manter a banda em evidência ao longo dos anos, mas também acabou evidenciando uma questão difícil de ignorar: apesar de toda essa movimentação, o Pond parece artisticamente estacionado. Essa sensação volta a aparecer em Terrestrials, décimo segundo álbum de estúdio do grupo. Embora o disco apresente temas mais ambiciosos do que muitos de seus trabalhos anteriores, a música raramente acompanha a mesma profundidade das ideias exploradas nas letras.

O resultado é um álbum que busca discutir questões urgentes, como degradação ambiental, identidade nacional e exploração econômica, mas que frequentemente soa preso a fórmulas sonoras já bastante familiares. Musicalmente, Terrestrials não deixa dúvidas sobre sua autoria. As canções possuem mais energia e urgência do que as do antecessor Stung! (2024), mas continuam ancoradas na combinação de psicodelia, glam rock e guitarras distorcidas que a banda vem refinando há mais de uma década. Mesmo após destacar que o álbum foi gravado sem os tradicionais pedais de fuzz que marcaram parte de sua identidade sonora, a diferença prática é mínima. As guitarras continuam ásperas, os arranjos permanecem carregados de textura e a estética geral pouco se afasta daquilo que os fãs já conhecem. Faixas como “Skyworks” mergulham em sintetizadores inquietantes e atmosferas carregadas de tensão, enquanto “The Fatal Shore”, produzida por Kevin Parker, utiliza linhas de baixo pesadas para construir uma sensação quase militar de avanço iminente.

Em outros momentos, como na acústica “Roebuck Plains”, o grupo ensaia uma mudança de direção, mas logo retorna ao seu território habitual de camadas sonoras densas e estruturas psicodélicas expansivas. O verdadeiro foco de Terrestrials, porém, está nas letras. Nick Allbrook e Jay Watson utilizam o álbum para refletir sobre a relação entre desenvolvimento econômico e destruição ambiental, especialmente dentro do contexto australiano. A natureza ocupa um papel central no projeto, não apenas como tema, mas também como elemento estrutural. Minerais, plantas, regiões geográficas e atividades extrativistas aparecem constantemente ao longo da tracklist, formando um retrato complexo das tensões entre progresso e exploração dos recursos naturais. Nesse aspecto, o disco demonstra uma ambição admirável.

Canções como “Casuarina” abandonam qualquer tentativa de sutileza para atacar diretamente figuras associadas ao poder econômico australiano. Ao mesmo tempo, a faixa conecta questões ambientais a problemas sociais mais amplos, incluindo precarização do trabalho, imigração e oportunidades limitadas para jovens profissionais. Sua energia acelerada e seus riffs agressivos fazem dela um dos momentos mais eficazes do álbum, justamente por conseguir traduzir suas ideias em algo musicalmente envolvente. O desafio surge quando Terrestrials exige do ouvinte um nível de contextualização que a própria música nem sempre recompensa. Grande parte das referências presentes nas letras depende de conhecimentos específicos sobre geografia australiana, mineração, história colonial e política local. Muitas das passagens mais inteligentes do disco só revelam sua riqueza após pesquisas externas.

É preciso investigar para perceber, por exemplo, quando Allbrook assume a perspectiva de um trabalhador da mineração ou quando determinadas músicas dialogam com eventos fundamentais da formação histórica da Austrália. Há inteligência de sobra nessas composições. O problema é que ela frequentemente permanece escondida. Enquanto as letras acumulam camadas de significado, a música raramente alcança o mesmo grau de inventividade. As melodias, os arranjos e as estruturas acabam funcionando mais como suporte do que como força criativa equivalente. Em consequência, o álbum transmite uma estranha sensação de desequilíbrio: há muito para interpretar, mas nem sempre muito para sentir. Essa disparidade torna ainda mais evidente uma questão que acompanha o Pond há anos. Desde o sucesso de “Paint Me Silver”, em 2017, a banda parece incapaz de se desvencilhar completamente da estética que definiu aquele período do rock psicodélico.

Enquanto muitos contemporâneos buscaram novas direções — seja aproximando-se do pop eletrônico, da música dançante ou de experimentações mais radicais —, o Pond continua orbitando uma zona de conforto sonora que, embora competente, já não transmite a mesma sensação de descoberta. Por isso, Terrestrials acaba provocando sentimentos contraditórios. É um álbum repleto de ideias relevantes, preocupado com temas urgentes e construído por músicos claramente interessados em observar criticamente o mundo ao seu redor. Ao mesmo tempo, sua execução musical raramente atinge o mesmo nível de ousadia presente nas letras. No fim das contas, o disco reforça a impressão de uma banda que continua pensando grande, mas que encontra cada vez mais dificuldade para traduzir essa ambição em evolução artística. As preocupações ambientais e sociais abordadas em Terrestrials são extremamente atuais. O som que as acompanha, nem tanto.

SCORE: 60

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