Marika Hackman – Big Sigh (2024)

by Junior Idalino

Em seu novo álbum, Marika Hackman explora um som mais simplificado que destaca suas letras incisivas.

Em I’m Not Your Man (2017), Marika Hackman expandiu sua paleta sonora com referências ao britpop e um espírito punk travesso. Posteriormente, Any Human Friend (2019) surgiu de forma mais sombria, trocando as baladas dedilhadas por uma mistura de música eletrônica e pop rock. Mas então tudo parou. Hackman atravessou um período difícil e passou a lutar contra um bloqueio criativo persistente. Enquanto o tempo parecia congelar durante os primeiros meses da pandemia, seus instintos de composição também ficaram estagnados. O bloqueio foi tão severo que ela chegou a temer nunca mais lançar outro disco. Cinco anos depois, Big Sigh foi descrito pela própria artista como o álbum mais difícil de sua carreira. O resultado é um suspiro de alívio que encontra equilíbrio entre os dedilhados acústicos de seu álbum de estreia, We Slept at Last (2015), e o pop que definiu seus dois trabalhos seguintes.

Big Sigh é um álbum melancólico e complexo que mostra a cantora e compositora inglesa expandindo seus horizontes sonoros sem abandonar seus temas favoritos. Há relacionamentos em constante transformação e canções de amor distorcidas, tudo articulado por uma linguagem áspera e por imagens recorrentes de pais, da fronteira entre infância e vida adulta e da habitual fascinação de Hackman pela melancolia sexual. Enquanto Any Human Friend (2019) focava no pop rock, Big Sigh começa com “The Ground”, uma faixa predominantemente instrumental que repete um acorde de piano inquietante antes da entrada de Hackman: “O ouro está no chão / Eu fui feliz por um tempo”. Trata-se de uma introdução perfeita. “The Ground” apresenta imediatamente o álbum como uma obra desoladora e prepara o terreno para a atmosfera constante e envolvente que se segue. Comparando o processo de gravação a quebrar um bloco de gelo, Hackman foi esculpindo Big Sigh com uma determinação exausta.

Às vezes, as músicas parecem surgir com facilidade, desprendendo-se em fragmentos brilhantes; em outros momentos, é possível sentir o esforço necessário para construí-las. A acústica “The Yellow Mile” é incrivelmente contida, reduzida praticamente à combinação entre guitarra e a delicada voz de Hackman. A canção funciona como uma tela em branco na qual suas letras afiadas brilham como lâminas. Ao narrar um relacionamento insalubre, Hackman compara sua estagnação emocional à de um inseto ferido. “Eu deixei meu corpo aos seus cuidados”, canta, sugerindo inicialmente uma conclusão reconfortante. A reviravolta, porém, é brutal: “Você arrancou minhas asas e eu desmaiei / Eu era um besouro de barriga para cima”. Hackman sempre demonstrou habilidade para contaminar melodias doces com versos venenosos, e “The Yellow Mile” representa uma versão especialmente enxuta e espinhosa dessa característica.

A mais lenta, “Vitamins”, combina dinâmicas sussurradas com imagens ainda mais agressivas. Aqui, a artista altera sua fórmula habitual, revestindo a voz com camadas metálicas e encerrando a música com um arpejo distorcido. “Mamãe diz que sou um desperdício de pele / Um saco de merda e oxigênio”, canta. Um chilrear eletrônico atravessa os vocais, soando quase como o monitor de um hospital. Há algo profundamente vulnerável em suas confissões de inadequação e falta de valor próprio, uma sensação que se torna ainda mais intensa graças à distância emocional de sua interpretação. Big Sigh é consideravelmente menos pop do que seus dois antecessores, mas as faixas mais energéticas também acabam sendo as mais fortes. “No Caffeine” e “Slime”, ambas lançadas como singles no ano anterior, combinam sua entrega impassível com ganchos inteligentes. “Slime”, que remete diretamente às composições de Any Human Friend (2019), é uma ode ao sexo.

O que começa como uma balada sombria inspirada nos anos 90 gradualmente revela um núcleo de guitarras cortantes e extremamente envolventes. Já “No Caffeine” compartilha mais DNA com o britpop dramático de I’m Not Your Man (2017), empilhando cordas sobre metais e guitarras abafadas. Hackman escreveu a letra como uma lista de “curas” para sua ansiedade — prescrições autoescritas envolvendo chá de ervas, vinho, televisão e sono. À medida que os acordes avançam em direção ao refrão, a catarse finalmente se instala. Ainda assim, suas investidas no rock alternativo nem sempre alcançam o mesmo resultado. A faixa-título é uma aproximação lânguida do grunge: lenta, nebulosa e ligeiramente desleixada. Em vez de contrastar sua voz com arranjos inesperados ou dedilhados mais delicados, Hackman suaviza as arestas da composição com um baixo sonolento, guitarras excessivamente robustas e letras vagas. Big Sigh encontra seus melhores momentos justamente quando ela resiste a esses impulsos e se dedica a esculpir imagens mais precisas.

SCORE: 72

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