21 Savage – american dream (2024)

by Brandon Everett

O terceiro álbum solo do rapper equilibra um novo nível de ambição e profundidade.

Nascido em Londres, 21 Savage mudou-se para os Estados Unidos com a família ainda na infância. Durante anos, conviveu com uma sensação de deslocamento, agravada pelas restrições do sistema imigratório americano, que interromperam sua carreira e o lançaram em uma crise pessoal. Foi algo que ele precisou enfrentar e superar com esforço. No fim de 2023, porém, finalmente pôde retornar ao Reino Unido, sua terra natal. Seu novo álbum de estúdio, american dream, funciona como uma oportunidade para contar essa história. Anunciado poucos dias antes de seu lançamento ao lado de um filme inspirado em sua vida — estrelado por Donald Glover no papel principal — o projeto é uma obra rica em detalhes. Abrindo com uma mensagem de sua mãe, american dream conecta diretamente 21 Savage às próprias raízes. Raramente ele se mostrou tão aberto. Como estilista singular do rap, permanece instantaneamente reconhecível.

O elenco de convidados também é impressionante e cuidadosamente selecionado: Doja Cat fornece equilíbrio em “n.h.i.e.”, enquanto uma série de colaborações com Metro Boomin reforça uma parceria construída ao longo de uma década. A primeira metade do álbum se apoia em seus talentos como rapper, enquanto a segunda abraça inclinações mais próximas do R&B. Essa abordagem não é exatamente nova para 21 Savage. Na penúltima faixa de i am > i was (2018), por exemplo, ele dedicou um tributo emocionado à mãe, agradecendo por sua paciência durante os anos de rebeldia na adolescência. Também não foi a primeira vez que abriu uma janela para seu universo interior. Ao longo daquele álbum, apresentou-se como alguém atormentado pelas próprias memórias, incapaz de escapar dos traumas do passado mesmo enquanto desfrutava dos frutos da riqueza.

Ainda assim, aquele momento marcou uma disposição maior para o autoexame. Agora, sua mãe retribui o gesto e inaugura o novo álbum com uma dedicatória que faz referência aos inúmeros sacrifícios que realizou para ajudá-lo a perseguir seus sonhos mais ambiciosos. Em vez de relegar esse peso emocional a um canto do disco, 21 Savage o utiliza como motor para tentar construir um retrato completo de quem se tornou. Não é uma tarefa simples. O perfil do rapper cresceu consideravelmente nos últimos anos, impulsionado por um álbum colaborativo com Drake e por iniciativas comunitárias que o transformaram em uma liderança respeitada em Atlanta, na Geórgia. Seu terceiro álbum solo procura equilibrar a satisfação trazida por sua posição atual com a personalidade atormentada que gosta de revisitar os detalhes mais brutais de sua trajetória. Essa combinação produz alguns tropeços, mas o artista de 31 anos supera os excessos graças à clareza de sua escrita e à confiança de sua presença lírica.

Os melhores momentos do álbum são fortes o bastante para reafirmar seu talento. A linha entre o uso inventivo de samples e o lirismo nostálgico pode ser tênue, mas a excelente equipe de produtores — formada por Metro Boomin, Cardo, Coupe, London on da Track e OG Parker — encontra um ponto de equilíbrio entre a produção minimalista e a postura reservada de 21. Em “all of me”, a voz cadenciada de Gwen Dickey, vocalista do Rose Royce, ecoa ao fundo, criando um cenário sombrio onde o rapper revisita a violência e as traições que enfrentou para alcançar este estágio de sua vida. As maiores surpresas do álbum, como o canto angelical da brasileira Elza Laranjeira em “redrum”, são mais eficazes do que os tributos explícitos a Faith Evans e K-Ci presentes em “prove it” e “should’ve wore a bonnet”. No geral, a coesão do projeto é um de seus maiores trunfos. O tom contido sempre favoreceu 21 Savage.

Sua eficácia nasce de ajustes sutis: pequenas alterações de registro, mudanças de entonação e graves cuidadosamente posicionados para transmitir emoção e variedade a versos que, à primeira vista, parecem impassíveis. Em “redrum”, a forma como distribui suas rimas afiadas cria a sensação de que está prestes a perder o controle a qualquer momento. Em “sneaky”, uma versão mais intensa de seus característicos sussurros domina o refrão antes de dar lugar às frases curtas e certeiras que atingem como golpes de um lutador profissional. “Mamada tão boa, ela podia tomar sorvete de canudinho / Sou muito fértil pra meter em você sem camisinha”, dispara sobre uma batida de trap produzida por Coupe. Por mais que tente capturar a essência dos grandes clássicos do R&B, “prove it”, ao lado de Summer Walker, não alcança o carisma natural que ambos os artistas costumam exibir. Os versos pouco inspirados de 21 acabam sendo carregados pela interpretação de Walker, que canta como se estivesse em uma de suas baladas mais emocionais. 

Burna Boy e Travi$ Scott surgem como participações dispensáveis, um contraste evidente com a escuridão envolvente da breve aparição de Young Thug e os vocais indiferentes de Doja Cat. Já a tentativa de criar uma faixa pop-rap cinematográfica em “red sky”, com Tommy Stewart e Mikky Ekko, lembra uma música esquecível saída da trilha sonora de “Velozes & Furiosos”. À medida que seu status continua a mudar, 21 Savage expõe as contradições de sua existência com uma honestidade quase neutra. Ele alterna entre reconhecer sua própria crueldade, homenagear pessoas queridas e descrever a eliminação de inimigos. Em “dark days”, ao lado de Mariah the Scientist, reflete sobre os frutos do próprio amadurecimento e distribui conselhos como “permanecer na escola” e “baixar as armas” para jovens que crescem cercados pela violência das ruas. É uma declaração surpreendentemente sensível, que desmonta a persona brutal construída ao longo da carreira e oferece uma avaliação sincera de quem ele se tornou.

SCORE: 68

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