Madonna – CONFESSIONS II

by Gustavo Bustermann

“CONFESSIONS II” marca o retorno mais inspirado de Madonna em duas décadas.

Durante boa parte dos últimos 15 anos, defender os álbuns da Madonna tornou-se uma tarefa cada vez mais difícil. Após uma sequência de lançamentos recebidos de forma morna — MDNA (2012), Rebel Heart (2015) e Madame X (2019) —, consolidou-se a percepção de que a artista havia perdido parte da força criativa que definiu sua carreira. A própria cantora já atribuiu esse período turbulento ao contrato firmado com Live Nation e Interscope, que a afastou da Warner após quase três décadas e, segundo ela, limitou sua liberdade artística. Essa frustração nunca foi exatamente um segredo. Em diferentes ocasiões, Madonna lamentou ter deixado de trabalhar com equipes reduzidas e de desenvolver projetos de forma orgânica, substituindo esse processo por sessões coletivas de composição que, em sua visão, enfraqueciam sua identidade como autora. É justamente essa mudança de método que faz toda a diferença em CONFESSIONS II. A sequência direta de Confessions on a Dance Floor (2005) reúne novamente Madonna e Stuart Price, produtor responsável por um dos capítulos mais celebrados de sua discografia.

A parceria recupera uma dinâmica criativa que parecia perdida há anos: das 16 faixas do álbum, a maior parte é assinada apenas pelos dois, enquanto outras poucas incluem somente um artista convidado além da dupla. O resultado é um trabalho muito mais coeso, autoral e consistente do que qualquer lançamento recente da cantora. Mais do que simplesmente superar seus discos anteriores, CONFESSIONS II representa uma volta ao nível artístico que durante muito tempo pareceu inalcançável. O álbum não impressiona apenas por ser seu melhor trabalho em cerca de vinte anos — uma comparação facilitada pela irregularidade de sua produção recente —, mas porque consegue ocupar um lugar legítimo entre os momentos mais fortes de sua carreira. A produção musical é um dos principais responsáveis por isso. Embora a base continue ancorada na música eletrônica, Madonna e Stuart Price evitam repetir a fórmula do disco original.

Em vez disso, exploram diferentes vertentes da cultura clubber, incorporando acid house, French touch, UK garage, disco e house clássico em um repertório que soa amplo, sofisticado e surpreendentemente diverso. Essa variedade dialoga diretamente com as origens musicais da artista. Antes de se tornar um fenômeno pop, Madonna absorvia influências vindas das pistas de dança, do electro, do freestyle e da efervescente cena noturna de Nova York. CONFESSIONS II parece funcionar como uma homenagem a essa formação, resgatando estilos que moldaram sua identidade antes mesmo do estrelato. O cuidado de Stuart Price também se destaca em inúmeros detalhes. Ao longo do disco surgem pequenas referências espalhadas pela produção que remetem a diferentes fases da carreira da cantora. Há ecos de Erotica (1992), Bedtime Stories (1994) e Ray of Light (1998), costurados de maneira discreta, sem depender apenas da nostalgia.

O produtor demonstra conhecer profundamente a linguagem musical de Madonna e utiliza esse repertório para construir algo que respeita seu passado sem se limitar a reproduzi-lo. Mas o verdadeiro diferencial do álbum não está apenas nos beats. O que transforma CONFESSIONS II em um trabalho especial é sua dimensão autobiográfica. Em vez de apenas criar músicas para as pistas de dança, Madonna utiliza o disco para revisitar momentos fundamentais de sua própria trajetória, permitindo um nível de vulnerabilidade raro em sua discografia. Essa proposta nasce da pesquisa realizada para um projeto de cinebiografia que acabou sendo cancelado, mas que serviu como ponto de partida para diversas composições do álbum. “Danceteria” talvez seja o exemplo mais divertido dessa abordagem. Misturando disco, electroclash e French touch, a faixa revisita os primeiros anos da cantora em Nova York, quando distribuía fitas demo para DJs de casas noturnas como Roxy, Paradise Garage e a própria Danceteria.

Pelo caminho, surgem referências a personagens importantes daquele período, como Mark Kamins, Debi Mazar, Maripol e Jean-Michel Basquiat, além de citações à cena cultural que moldou sua juventude. O clima acelerado da música transmite exatamente a sensação de descoberta e euforia de quem está vivendo suas primeiras noites na cidade. Enquanto essa faixa celebra o início da carreira, o encerramento do álbum segue uma direção completamente diferente. “L.E.S. Girl” abandona o brilho das pistas para retratar a vida longe dos holofotes. Em vez da estrela pop, surge a jovem artista tentando pagar o aluguel, vivendo com poucos recursos e construindo seus primeiros relacionamentos. A atmosfera delicada da música reforça um lado emocional raramente explorado com tanta sinceridade por Madonna. Há uma sensibilidade incomum em sua interpretação. Ao recordar pessoas que marcaram sua juventude, a cantora transmite uma sensação de perda e passagem do tempo que culmina na repetição do verso “everything fades away”.

Não é apenas uma reflexão sobre envelhecimento, mas também sobre amigos, familiares, colaboradores e antigos companheiros que morreram ao longo dos anos. Poucas vezes ela pareceu tão aberta emocionalmente em estúdio. Essa carga sentimental ajuda a reinterpretar todo o restante do álbum. Nas primeiras faixas, músicas como “Love Sensation” e “Love Without Words” insistem na importância do amor e da esperança. Inicialmente, esse discurso parece destoar da imagem construída por Madonna durante décadas, normalmente mais interessada em provocar do que em oferecer conforto. Porém, conforme o álbum avança, percebe-se que essas declarações surgem como resposta a uma narrativa profundamente marcada pelo luto e pelos traumas familiares. “Fragile” aborda, de forma aparentemente indireta, a relação complexa com seu irmão Christopher, falecido durante a produção do disco. 

Já “Betrayal” utiliza uma atmosfera de trip-hop para tratar da figura de sua madrasta, escondendo ressentimento sob uma interpretação fria e controlada. O momento mais impactante, entretanto, acontece em “The Test”, parceria com sua filha Lola Leon. Na canção, Madonna volta a chamá-la de “Little Star”, apelido utilizado anos atrás em Ray of Light (1998), para fazer uma reflexão dolorosa sobre maternidade e fama. Pela primeira vez, ela admite que talvez tenha colocado a filha em uma posição que nunca desejou ocupar, reconhecendo o peso da exposição pública e as consequências de crescer sob os holofotes. É um dos instantes mais comoventes de toda sua carreira. Nem mesmo a estrutura do álbum foge dessa proposta artística.

Assim como aconteceu em Confessions on a Dance Floor (2005), as músicas foram concebidas para funcionar como uma experiência contínua, desencorajando o consumo fragmentado típico das playlists atuais. Essa decisão reforça o compromisso de Madonna em apresentar o disco como uma obra completa, e não apenas como uma coleção de possíveis singles. No fim, CONFESSIONS II representa muito mais do que um simples retorno à boa forma. O álbum recupera a intuição artística que sempre distinguiu Madonna de seus contemporâneos: a disposição para confiar em seus próprios instintos, unir ambição pop a profundidade emocional e transformar experiências pessoais em música acessível sem perder complexidade. Depois de anos em que parecia distante da artista visionária que revolucionou o pop, Madonna entrega um trabalho que não apenas interrompe seu período mais irregular, mas reafirma por que sua capacidade de reinvenção continua sendo uma das mais impressionantes da história da música popular.

SCORE: 80

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