Em “Music, Fashion, Film”, Charli xcx troca o frenesi do álbum anterior por um retrato consciente da própria fama.
Depois de alcançar um dos maiores momentos de sua carreira com BRAT (2024), seria natural imaginar que Charli xcx tentaria ampliar ainda mais o alcance de sua fórmula. Em vez disso, ela faz justamente o contrário. Music, Fashion, Film rejeita qualquer tentativa de superar o fenômeno anterior em escala e opta por um caminho deliberadamente mais íntimo, espontâneo e despretensioso. Essa mudança não acontece apenas no tamanho do projeto, mas também em sua proposta artística. Descrito pela própria Charli como um álbum sobre o processo criativo, Music, Fashion, Film funciona quase como um registro dos bastidores de sua carreira. Em vez de concentrar as atenções nos conflitos emocionais e nas inseguranças que dominaram BRAT (2024), o novo trabalho volta seus olhos para o ato de criar, para as relações construídas e para o estranho equilíbrio entre autenticidade e performance que define a vida de uma estrela pop.
A transformação sonora acompanha essa nova perspectiva. As batidas eletrônicas que impulsionavam BRAT (2024) dão lugar a guitarras, riffs simples e referências ao rock alternativo dos anos 1990 e 2000. Ao lado dos colaboradores habituais A.G. Cook e Finn Keane, Charli não parece interessada em reinventar o gênero. Pelo contrário: a abordagem assume conscientemente seu caráter referencial, evocando grupos como Garbage, The Strokes e tantas outras bandas daquela época sem esconder suas inspirações. É justamente essa falta de preocupação em soar inovadora que acaba se tornando parte do charme do disco. As músicas frequentemente parecem esboços deixados propositalmente inacabados. Algumas estruturas são mínimas, certos refrães repetem poucas palavras e diversas composições dão a impressão de terminar antes de desenvolver completamente suas ideias.
Longe de parecer descuido, essa sensação transmite a impressão de que Charli prefere preservar a energia do primeiro impulso criativo em vez de lapidar excessivamente cada faixa. Esse espírito aparece logo nas letras. Quem acompanha sua carreira já sabe que ela costuma brincar com a própria imagem pública, misturando ironia, exagero e confissões. Em Music, Fashion, Film, essa estratégia continua presente. Há provocações absurdas, piadas que desmontam a si mesmas e frases aparentemente improvisadas que servem menos para contar histórias do que para reforçar o caráter performático de sua persona artística. À primeira vista, o álbum pode até parecer superficial. Se analisadas isoladamente, muitas letras soam extremamente simples, quase inacabadas. Entretanto, a força do repertório está muito mais na construção sonora do que na escrita em si. Pequenas sobreposições vocais, mudanças bruscas de dinâmica e efeitos de produção criam uma experiência muito mais rica do que os versos, por si só, sugerem.
Faixas como “Yeah” ilustram bem essa proposta. Baseada em uma estrutura extremamente reduzida, a música trabalha repetição, tensão e pequenas distorções de ritmo para provocar uma sensação constante de expectativa. O mesmo acontece em “2007”, que organiza fragmentos instrumentais e vocais quase como uma colagem, criando um caos cuidadosamente planejado. Mesmo quando adota guitarras mais pesadas, Charli evita seguir convenções do rock tradicional. Em “I’m Afraid”, por exemplo, riffs inspirados por bandas como Pixies aparecem lado a lado com melodias delicadas e interpretações quase sonolentas. O contraste entre agressividade instrumental e vulnerabilidade vocal produz alguns dos momentos mais interessantes do álbum. Essa convivência entre o improvisado e o meticulosamente calculado atravessa todo o projeto. Após um sucesso de proporções incomuns como BRAT (2024), lançar um disco que deliberadamente parece menos acabado envolve certo risco.
Mas Charli já demonstrou outras vezes que trabalha melhor quando encara seus lançamentos como experimentos em constante transformação do que como produtos perfeitamente acabados. Para quem acompanha sua trajetória desde projetos como Pop 2 (2017), essa lógica faz completo sentido. Embora o conceito de rock sirva como novidade estética, a identidade musical permanece reconhecível. As melodias continuam carregando aquela mistura característica de euforia e melancolia, enquanto a produção mantém o dinamismo e a elasticidade que definem a parceria entre Charli, A.G. Cook e Finn Keane. Os melhores momentos surgem justamente quando essa simplicidade começa a revelar camadas mais profundas. Em “SS26”, uma das faixas mais marcantes do álbum, xcx mistura reflexões sobre a artificialidade do estrelato com imagens de colapso coletivo.
Ao afirmar que nem música, nem moda, nem cinema serão capazes de salvar alguém, a composição ganha uma dimensão que ultrapassa a crítica à cultura pop e parece dialogar também com o sentimento contemporâneo de impotência diante das crises ambientais e sociais. É nesse ponto que Music, Fashion, Film revela sua verdadeira ambição. Muito além de discutir referências culturais, o álbum examina o que significa transformar a própria identidade em obra artística. Desde how i’m feeling now (2020) e CRASH (2022), Charli vem explorando a relação entre vida pessoal e personagem pública, mas aqui essa investigação assume um aspecto ainda mais desconfortável. Canções como “Camera” sugerem que a artista só consegue deixar de sentir o peso da própria identidade quando está interpretando justamente essa versão pública de si mesma. O paradoxo é inevitável: quanto mais performa, mais o público acredita estar conhecendo a “verdadeira” Charli xcx.
O encerramento amplia ainda mais essa reflexão. A última faixa parte da constatação de que ninguém permanece para sempre. A ideia pode ser interpretada como uma lembrança de que toda obra sobrevive aos seus criadores, mas também funciona como comentário sobre a própria condição de uma estrela pop, cuja imagem se torna inseparável e seu trabalho artístico. No fim, Music, Fashion, Film não tenta repetir o impacto cultural de BRAT (2024), nem competir com ele. Em vez disso, Charli xcx entrega um álbum menor em escala, mas igualmente revelador. Ao trocar a grandiosidade pelo esboço, o excesso pela contenção e a catarse coletiva por uma observação íntima dos mecanismos da criação, ela oferece um retrato curioso de uma artista que, mesmo no auge da fama, continua questionando onde termina a performance e começa a pessoa por trás dela.
