Gracie Abrams – Daughter from Hell (2026)

by Gustavo Bustermann

Em “Daughter from Hell”, Gracie Abrams amadurece como compositora, mas esbarra nos limites de sua própria fórmula.

Desde o início da carreira, Gracie Abrams transformou a intimidade em matéria-prima para suas canções. Seus discos sempre funcionaram como diários emocionais, registrando relacionamentos, inseguranças e conflitos internos com riqueza de detalhes. Em Daughter from Hell, no entanto, a cantora tenta expandir esse universo. Em vez de apenas narrar acontecimentos pessoais, ela busca refletir sobre identidade, luto e existência, dando ao álbum um caráter mais amplo e contemplativo. A mudança de abordagem é evidente, mas nem sempre produz os resultados mais consistentes. Ao longo do repertório, Abrams constrói uma personagem permanentemente marcada pela dor. Ela canta sobre exaustão física, vazio emocional e traumas que parecem acompanhá-la desde sempre. Metáforas de feridas abertas, sombras, fantasmas e aparições surgem repetidamente, compondo uma atmosfera carregada que atravessa praticamente todas as faixas. Essa intensidade emocional continua sendo um de seus maiores trunfos. 

Desde a estreia com minor, em 2020, Abrams consolidou um estilo baseado em melodias discretas, interpretações delicadas e letras profundamente confessionais. Em Daughter from Hell, ela mantém essa identidade enquanto volta a trabalhar com Aaron Dessner, parceiro criativo desde This Is What It Feels Like (2021). A parceria permanece sólida: violões dedilhados, cordas suaves, pianos melancólicos e percussões discretas formam um cenário sonoro acolhedor, que valoriza sua voz sem competir com ela. Desta vez, porém, a produção parece mais refinada. Comparado ao álbum anterior, The Secret of Us (2024), o novo trabalho abandona parte do acabamento excessivamente polido em favor de uma sonoridade mais orgânica. Músicas como “Good Reason” demonstram essa evolução ao permitir que os arranjos respirem mais, evitando exageros estruturais e dando espaço para que a emoção se desenvolva naturalmente.

Mesmo assim, o álbum raramente se afasta da fórmula que Abrams e Dessner construíram juntos. As músicas seguem uma arquitetura bastante conhecida: versos sussurrados, refrães delicadamente expansivos e instrumentações minimalistas. É uma estética elegante e cuidadosamente executada, mas cuja repetição acaba limitando o impacto de parte do repertório. Os momentos em que a cantora rompe esse padrão estão entre os mais interessantes do disco. “Look at My Life” é um exemplo claro. Apesar de abordar ansiedade e espirais emocionais recorrentes, a faixa incorpora uma energia pop incomum em seu catálogo. Mesmo recorrendo a alguns clichês típicos da linguagem terapêutica contemporânea, a composição funciona graças ao ritmo contagiante e ao excelente encaixe melódico dos versos, mostrando uma faceta mais dinâmica da artista.

A abertura, “Hit the Wall”, segue caminho semelhante. A música combina um instrumental relativamente mais vigoroso com uma interpretação vocal que transmite fragilidade sem abrir mão da intensidade. Ainda assim, justamente quando parece pronta para explodir, a canção opta pela contenção. Essa decisão resume boa parte do álbum: tudo é cuidadosamente equilibrado, mas quase nunca verdadeiramente surpreendente. Com o passar das faixas, outro problema começa a aparecer. Embora Gracie escreva sobre sentimentos extremamente específicos, os acontecimentos que provocam essas emoções permanecem nebulosos. Muitas letras sugerem relações abusivas, perdas ou conflitos profundos, mas evitam oferecer elementos concretos suficientes para que essas histórias ganhem contornos definidos.

Em “Men Like You”, por exemplo, a cantora parece abordar uma relação marcada por manipulação e interesse, mas a linguagem excessivamente abstrata enfraquece o impacto da narrativa. Situação semelhante acontece em “Imaginary Friend”, cuja premissa desperta curiosidade sem jamais esclarecer completamente quem é a figura central da música ou qual é sua função dentro da história. Essa preferência por sugestões em vez de definições faz com que diversas composições soem emocionalmente intensas, mas narrativamente difusas. Quando Abrams escolhe trabalhar com imagens mais concretas, porém, o resultado muda completamente. “Humming” está entre os melhores exemplos do disco. Inspirada pelos incêndios que devastaram parte de Pacific Palisades, bairro onde a cantora cresceu, a música amplia uma experiência pessoal para refletir sobre uma geração inteira convivendo com perdas, instabilidade e ausência de perspectivas.

Mesmo partindo de uma realidade privilegiada, Abrams consegue tratar o tema com sinceridade e sensibilidade, estabelecendo uma conexão genuína com o ouvinte. Outro momento de leveza aparece em “Minibar”. Escrita novamente com Audrey Hobert, amiga de infância e colaboradora frequente, a faixa traz um humor descontraído que contrasta com o restante do álbum. Embora esse clima quase destoe da proposta geral, evidencia como a parceria entre as duas costuma produzir algumas das observações mais específicas e memoráveis da compositora. No encerramento, contudo, o álbum evidencia seus próprios limites. Depois de quase uma hora mergulhado na mesma estética delicada criada por Aaron Dessner, a produção começa a perder parte de seu impacto. A elegância permanece, mas já não basta para sustentar composições que, em alguns casos, carecem de maior definição narrativa. Paradoxalmente, o melhor momento do disco é justamente aquele que mais se distancia dessa zona de conforto. 

A faixa-título, “Daughter from Hell”, amplia o peso das guitarras, aposta em vocais mais potentes e apresenta uma interpretação muito mais direta do que o habitual. A homenagem à mãe da cantora ganha força exatamente porque abandona parte da ambiguidade presente no restante do álbum, permitindo que emoção e clareza caminhem juntas. A atmosfera lembra trabalhos recentes de Ethel Cain e aponta para um caminho artístico mais ousado. No fim, Daughter from Hell reúne algumas das melhores composições da carreira de Gracie Abrams e confirma seu talento como compositora. Ao mesmo tempo, evidencia que sua longa parceria com Aaron Dessner talvez tenha chegado a um ponto de acomodação criativa. Quando se permite experimentar novas sonoridades e interpretações mais expansivas, a cantora revela um potencial ainda maior. O próximo passo parece claro: sair do ambiente seguro que definiu sua identidade até aqui e descobrir o que existe além dele.

SCORE: 60

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