Green Day – Saviors (2024)

by Leo Ashford

Green Day se reúne com o produtor Rob Cavallo e se envolve novamente com as preocupações do estado da nação.

Anunciado como uma espécie de continuação espiritual de Dookie (1994) e American Idiot (2004), Saviors representa a mais recente tentativa do Green Day de reafirmar sua identidade punk. Embora a campanha promocional da banda tenha destacado seus comentários sociopolíticos mordazes, a verdadeira questão é outra: o Green Day ainda merece reivindicar seu lugar como uma voz da classe trabalhadora? Em certa medida, sim. O 14º álbum de estúdio do trio é uma proposta mais convincente do que o equivocado Revolution Radio (2016). Depois de Father of All Motherfuckers (2020) surpreender ao abandonar a política e grande parte de suas convenções em favor de um garage rock descompromissado, Saviors retorna à fórmula conhecida. Billie Joe Armstrong afirma ouvir punk rock todos os dias, e descreveu o álbum como um renascimento criativo da banda. Mas essa não é a primeira vez que o Green Day vende essa narrativa: “Revolution Radio” também foi promovido como um retorno às origens. “Vocês querem fazer história no rock’n’roll novamente juntos?”, perguntou o produtor Rob Cavallo a Armstrong durante o processo de criação do disco. O problema é que, em muitos momentos, as guitarras são tão exageradas que beiram a autoparódia.

“Não quero massas amontoadas / TikTok e impostos”, canta Armstrong em “The American Dream Is Killing Me”, a faixa de abertura, ecoando deliberadamente os primeiros versos de “American Idiot”. Deixando de lado as referências à COVID-19 e à suposta deterioração intelectual provocada pelas redes sociais, os slogans políticos simplificados e as observações superficiais do álbum tentam recuperar o espírito da angústia adolescente que definiu o pop punk dos anos 1990. Ainda assim, versos como “Eu sou estúpido e estou sozinho”, de “Look Ma, No Brains!”, transitam perigosamente entre a irreverência charmosa e o constrangimento involuntário. Musicalmente, porém, o álbum é mais sólido. Misturando influências do punk clássico, da Invasão Britânica e do rock and roll tradicional, o Green Day entrega um trabalho melódico e energético. Faixas como “Dilemma” e “Suzie Chapstick” apresentam guitarras luminosas que remetem aos Beach Boys. Em outros momentos, a banda demonstra habilidade ao combinar suas influências em músicas como “One Eyed Bastard” e “Corvette Summer”, nas quais riffs carregados de distorção e melodias açucaradas convivem de maneira surpreendentemente natural.

As 15 faixas do álbum orbitam, ainda que de forma vaga, o conceito do sonho americano — ou, mais especificamente, seu desgaste diante da realidade política e social contemporânea. Em “Fancy Sauce”, por exemplo, o narrador descreve o colapso gradual de sua saúde mental enquanto a música evolui de arpejos discretos para um clímax tomado por camadas de feedback. Os momentos mais tocantes surgem quando Armstrong abandona os discursos coletivos e volta sua atenção para experiências pessoais. “Goodnight Adeline” é uma ode sincera a um amor passageiro: “Boa noite, Adeline / Você vai dizer adeus e deixar para lá / Mais cedo ou mais tarde”, canta. A vulnerabilidade da música revela uma faceta mais madura de sua composição. Ainda mais emocionante é “Father to a Son”, talvez a faixa mais exposta emocionalmente do disco: “Há alguma coisa que eu possa fazer? / Uma sabedoria para onde seu coração está indo / Um lugar que você deseja mais do que posso dar”. São versos que dificilmente poderiam ter sido escritos pelo mesmo artista responsável por “Basket Case”.

Há também detalhes interessantes espalhados pelo álbum: o solo que abre “One Eyed Bastard” lembra curiosamente “So What”, de P!nk; os riffs abafados de “Coma City” evocam o punk britânico clássico; e a abertura de “Living in the ’20s” parece profundamente devedora do Blur. Gravado em Londres, Saviors demonstra uma clara vontade de homenagear as influências da banda, inclusive em sua arte de capa, que remete a grupos históricos do punk britânico. Em muitos momentos, porém, o Green Day parece mais interessado em reproduzir a estética de outras bandas do que em explorar a química que tornou seus primeiros discos tão irresistíveis. Mike Dirnt está praticamente enterrado na mixagem, enquanto Tré Cool permanece competente, mas raramente recebe espaço para fazer mais do que marcar o tempo.

O Green Day já foi uma banda genuinamente provocadora: irreverente, juvenil e consciente de suas próprias contradições. Em Saviors, porém, sua política soa simplista na melhor das hipóteses e ocasionalmente reacionária na pior. Armstrong escreveu “The American Dream Is Killing Me” durante as sessões de Father of All Motherfuckers (2020), mas decidiu guardá-la por acreditar que a faixa poderia se tornar excessivamente controversa em um país já polarizado. No contexto atual, entretanto, suas observações parecem genéricas demais para causar qualquer impacto real. “Gente na rua / Desempregados e obsoletos”, lamenta.

Em outros momentos, sequer fica claro qual é sua posição sobre determinados temas, seja o aumento do policiamento em “Coma City” ou as discussões sobre racismo em “Strange Days Are Here to Stay”. Quando não estão diagnosticando os males da América, os integrantes tentam justificar o título grandioso do álbum. “Foda-se no meu rock ‘n’ roll”, canta Armstrong em “Corvette Summer”, recorrendo novamente a frases e imagens que parecem retiradas de discos anteriores. A faixa-título provoca uma sensação semelhante: seu refrão soa estranhamente familiar. Em uma leitura generosa, isso pode ser encarado como homenagem; em uma menos benevolente, levanta dúvidas sobre a falta de originalidade do material. Há ainda uma história de amor perdida em meio ao caos. “Ela é uma Guerra Fria na minha cabeça / E eu sou Berlim Oriental”, canta Armstrong em “1981”. A metáfora é tão confusa quanto curiosa. Talvez ele queira dizer que pensa nela constantemente; talvez esteja sugerindo uma relação marcada por isolamento e divisão. Seja qual for a interpretação correta, ela resume bem o álbum.

Hoje, as entrevistas do Green Day são marcadas por um sentimento de satisfação e aceitação. Mas junto com essa maturidade veio uma certa complacência. Livre da pressão de se reinventar, a banda parece determinada a seguir rumo ao pôr do sol como os punks mais simpáticos — e menos perigosos — dos Estados Unidos.

SCORE: 51

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