Gustavo Bustermann – Blueprint (2022)

by Gustavo Bustermann

O amadurecimento de Gustavo Bustermann ganha forma em “Blueprint”.

O novo álbum de Gustavo Bustermann, Blueprint, apresenta a sonoridade de um artista em amadurecimento. Exatamente um ano depois de lançar seu álbum de estreia, ele concretiza sua proposta inicial, entregando uma dose cristalina de pop que é, ao mesmo tempo, cativante e enevoada. O jovem artista introspectivo ainda está presente aqui, mas aquele espírito libertado que começou a florescer assume o comando e alcança um lugar onde ele pode ser ele mesmo. Blueprint triunfa porque Bustermann começou a se libertar para ser quem deseja ser. O novo disco marca um salto em sua evolução. Se antes ele era um garoto de olhar ingênuo ou um jovem buscando seu caminho por meio da experimentação, agora demonstra mais confiança. Enquanto Aries (2021) explorou sua personalidade guiada pela astrologia de maneira emocionalmente crua, Blueprint reflete principalmente sobre desilusões amorosas. O resultado é um álbum que abraça de forma positiva a sexualidade, os relacionamentos, a vida e o amor.

O disco é tão caótico quanto atemporalmente moderno. O cantor brasileiro estabelece um equilíbrio delicado delicado entre o desejo e um tipo de introspecção profunda e dolorosa. Desde que iniciou sua carreira no período pós-pandemia, Gustavo passou a retratar um universo claramente cercado por sexo e romance. Mas ele parece viver um dia de cada vez, entregando-se ao prazer do momento em vez de se preocupar com o que virá a seguir; mesmo ao cantar sobre um relacionamento fracassado, mantém uma leveza contagiante diante das possibilidades. Há, contudo, algumas canções impressionantes em que feridas antigas ainda persistem. No álbum, ele disseca diversos aspectos dos relacionamentos, abordando desde paixão recente (“Did You Know?”), sexo e intimidade (“You’re the One”), término de relacionamento (“With You Forever”) até a experiência de ser traído (“Tears in the Dark”).

É uma obra autêntica; embora o conceito de um álbum centrado em relacionamentos já seja bastante explorado, Bustermann consegue executá-lo sem cair no clichê ou soar constrangedor. Cada faixa é capaz de provocar um sorriso, uma lágrima ou um suspiro. Ele realmente prospera nessa abordagem, pois cria um disco fiel à sua própria vida. Em entrevista à Busterz, Gustavo descreveu como frequentava bares gays nos intervalos entre os lockdowns da COVID-19 em São Paulo e se entregava à euforia, criando conexões com outras pessoas sob a luz baixa dos ambientes. Ele consegue traduzir essa sensação de libertação com facilidade e um toque de mistério — algo que transparece no som das músicas. Mas a ressaca emocional da manhã seguinte é um aspecto recorrente e implícito da experiência gay, e Bustermann abraça esses momentos de vulnerabilidade com uma delicadeza característica ao longo do repertório.

O álbum abre com “Strange Feelings”, um synth-pop emotivo que fala sobre ansiedade e medo da solidão. Acompanhada pelo som encorpado de uma guitarra e pela batida constante de um bumbo, a música o coloca em uma encruzilhada. Ele canta sobre se sentir sozinho, cansado, sem amigos e feio o tempo todo. É nesse momento que finalmente encara a realidade que vinha processando: “Tomei alguns comprimidos para acalmar minha mente / Vaguei pelas ruas, sem encontrar paz”. Este é o momento em que Gustavo Bustermann se mostra mais humano. Blueprint pode ter raízes em experiências gays, mas o sentimento é universal. O artista ainda carrega as cicatrizes de relacionamentos passados, especialmente nos acordes de violão de “Black Bird”, em que a saudade se mistura à sensação de que está encontrando seu caminho no processo de cura. “Eu preciso de você, achei que você fosse forte o bastante pra ficar”, ele diz, antes de oferecer um pouco de esperança: “Eu me lembro do seu beijo / Você sente isso também?”. A entrega passiva e a gratificação instantânea permeiam “Black Bird”.

“With You Forever”, uma música sobre o fim de um relacionamento com uma batida de reggaeton, traz um refrão liricamente marcado pela dor: “Estou perdido no silêncio que você deixou / Você foi meu amor, minha luz, meu abrigo”. Em “December”, ele reflete sobre os efeitos distorcidos do desejo, ao admitir que ainda sente algo por um ex: “Você podia ter sido tudo pra mim / Agora o seu sorriso ecoa em dezembro”, ele canta enquanto a faixa cresce lentamente até um clímax intenso. Na melancólica “Blue”, Bustermann percebe que ainda não superou seu primeiro grande amor. “Eu te amei pra caralho / Eu não quero te esquecer”, ele canta no refrão. “Blue” concilia a nostalgia com o luto pelo que já não existe mais. O lirismo fornece uma sensação familiar para qualquer pessoa que já passou por um término, situando-se naquele espaço desconfortável entre se apegar e deixar ir.

Enquanto a cintilante “The Message” desperta inúmeras emoções com linhas como “aprendi a respirar na melancolia de outra pessoa”, a faixa mais emocionante de todas, “Tears in the Dark”, o encontra devastado após descobrir uma traição. “Dirigi sem destino / Por ruas que pareciam intermináveis / E meu coração estava pesado”, Bustermann canta sobre a produção desolada conduzida pelo piano. “Always Come Back” é uma canção sensual e peculiar, dada sua natureza caótica; nela, Gustavo reflete sobre sua realidade confusa e seu último relacionamento. “Eu não quero te ver / Mas ainda verifico se você está online / Eu não quero precisar de você / Mas não consigo fingir que estou bem”, ele canta no refrão, concluindo que simplesmente não desapegou de sua antiga paixão, mesmo que tudo isso seja um tanto deprimente.

Por um lado, Blueprint é o som de um artista abraçando plenamente suas paixões. Por outro, é um álbum que compreende profundamente que os altos e baixos da vida estão inevitavelmente entrelaçados. Acima de tudo, trata-se de um álbum carregado de amor, desejo, solidão e remorso. Um trabalho inspirador, marcado por uma melancolia ao mesmo tempo distante e onipresente. Mas trata também, em igual medida, do luto e da dificuldade de superar a dor do fim de um relacionamento, revisitando pequenos momentos que ganham significado profundo com o passar do tempo. Nesse sentido, a conexão humana é o tema central de Blueprint: como ela surge, como desaparece e a impressão duradoura que deixa em nós.

SCORE: 72

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