Beyoncé – TEXAS HOLD ‘EM

by Gustavo Bustermann

Lançados à sombra de um comercial de telecomunicações hackeado que foi ao ar durante o Super Bowl de domingo, os singles “TEXAS HOLD ‘EM” e “16 CARRIAGES” servem como uma suposta guinada de Beyoncé em direção à música country, uma transformação criativa que deverá se revelar por completo em seu próximo álbum, provisoriamente intitulado Act II. Os sinais de que RENAISSANCE (2022) poderia flertar com o country já estavam presentes. Beyoncé aparecia montada em um cavalo coberto por vidro espelhado e suspenso no ar, além de usar um chapéu de cowboy combinado a uma lingerie de estética semelhante. Na cerimônia do Grammy da semana passada, ela surgiu com um chapéu Stetson e um terno inspirado no imaginário cowboy. 

Entre as duas faixas, “TEXAS HOLD ‘EM” é a mais leve e animada. Construída sobre violão, órgão e uma seção de cordas, “16 CARRIAGES” adota uma abordagem mais lenta e solene. Embora Beyoncé concentre boa parte de sua atenção nos desafios que enfrentou ao longo da vida, especialmente em relação às figuras masculinas ao seu redor, as duas canções contam histórias distintas. Dito isso, “TEXAS HOLD ‘EM” soa como uma continuação espiritual de “Daddy Lessons” (2016), música que abordava as dores de uma infância marcada por dificuldades. Aqui, porém, o foco está na celebração: trata-se de dançar despreocupadamente em um bar ao som do banjo da musicista Rhiannon Giddens. Com produção de Raphael Saadiq, a faixa aproxima universos sonoros paralelos que frequentemente se cruzam, apesar das barreiras impostas pela segregação comercial dos gêneros musicais. O bumbo soa como a colisão de elementos do gospel, soul e country, enquanto Beyoncé bate os pés, assobia e conecta tradições da música africana às festas texanas de seu estado natal.

A canção funciona como uma espécie de engenharia reversa da própria artista, utilizada para sustentar um arco narrativo mais amplo em que ela celebra o legado de músicos negros. Se RENAISSANCE (2022) homenageava a história da club music e os espaços seguros criados por comunidades negras e LGBTQ+, o empoeirado honky tonk retratado aqui não é tão diferente de uma pista de dança abafada. Em ambos os cenários, Beyoncé busca estabelecer conexões entre cultura, identidade e raça. “TEXAS HOLD ‘EM” evoca artistas como Ray Charles e Louis Armstrong, músicos negros que ajudaram a redefinir os limites da música country em meados do século XX. No entanto, o uso do banjo carrega um significado ainda mais profundo. Tudo soa como um passeio a cavalo por uma longa e sinuosa estrada de terra, onde passado e presente se encontram sob o mesmo horizonte.

Avaliação: 4.5 de 5.

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