Sabrina Carpenter – Espresso

by Gustavo Bustermann

Com “Espresso”, Sabrina Carpenter abraça plenamente o lirismo literal. Em vez de pegar um objeto ou substantivo e transformá-lo em metáfora, ela se apropria de algo que já existe e carrega toda uma cultura própria: o café. A cantora compara sua sexualidade e seu afeto ao sabor aveludado e viciante da cafeína. E, assim como um expresso, seu amor é limitado e reservado àqueles com um paladar mais refinado. Em poucas semanas, “Espresso” conseguiu se transformar em um ritual matinal por si só — uma luxuosa faixa de nu-disco que se infiltrou na mente de milhares de ouvintes. É uma canção delirantemente boa e deliciosamente estranha. O que a torna tão brilhante é a convicção com que Sabrina canta versos que, muitas vezes, parecem não fazer sentido algum. Isso remete ao auge de “Say So”, de Doja Cat.

Como muitas músicas pop dos anos 1980, “Espresso” utiliza palavras que evocam sensações e estados de espírito muito mais do que comunicam significados concretos. Produzida por Julian Bunetta — responsável por algumas das músicas mais marcantes do One Direction —, a faixa inteira soa como uma descarga contínua de energia. Há um efeito de guitarra que se destaca imediatamente, enquanto a vivacidade da batida impulsiona a produção para a frente sem perder a leveza. As linhas de baixo funky permanecem discretas, mas fornecem à música um balanço irresistivelmente dançante. Sonoramente, tudo lembra um dia perfeito à beira-mar. “Eu não entendo esse desespero todo”, ela canta. “Meu ‘dar a mínima’ está de férias”. Considerando o caráter descontraído e despreocupado da faixa, faz sentido que o videoclipe aposte em uma estética igualmente ensolarada.

Carpenter desfila pela praia — e também por um barco — vestindo uma variedade de trajes de banho e vestidos inspirados no estilo pin-up. Há ainda um vestido preto translúcido que remete aos maiôs de decote coração dos anos 1950, usado pela cantora enquanto dança sobre uma prancha de surfe. “Agora ele está pensando em mim todas as noites / Não é fofo? Eu acho que sim / Diga que você não consegue dormir, amor, eu sei / Sou eu, expresso”, canta no refrão. Seus vocais são açucarados e sussurrantes; é quase como se estivesse fofocando com alguém sobre o rapaz com quem está saindo. Essa intimidade casual é justamente o que faz “Espresso” funcionar tão bem: a música soa tão leve e viciante quanto a bebida que lhe dá nome.

Avaliação: 4.5 de 5.

You may also like