Charli xcx & Lorde – Girl, so confusing featuring lorde

by Gustavo Bustermann

Com o lançamento do aclamado BRAT (2024), Charli xcx levou muita gente a se perguntar quem inspirou a faixa “Girl, so confusing”. Felizmente, ela respondeu à pergunta da melhor maneira possível: transformando a especulação em música. A canção é sobre Lorde, embora a relação entre as duas seja mais complexa do que uma simples rivalidade. Há anos elas são comparadas pela crítica e pelo público, a ponto de Charli já ter sido confundida com a cantora neozelandesa durante uma entrevista. Embora suas sonoridades sejam bastante diferentes, comparações constantes têm o poder de gerar inseguranças até mesmo entre artistas bem-sucedidas. Na versão original, Charli admite sua ambivalência em relação a Lorde: “É, eu não sei se você gosta de mim / Às vezes eu acho que você me odeia”. Ainda assim, a faixa está longe de ser um ataque. No segundo verso, ela destaca as diferenças entre suas personalidades: “Você adora escrever poemas / Mas eu adoro dar festas (…) / Eu acho que somos completamente diferentes / Mas os opostos se atraem / Talvez fomos feitas uma pra outra”.

Enquanto a música de Charli está profundamente ligada ao electropop, ao dance-pop e ao hyperpop, Lorde costuma se aproximar de sonoridades alternativas e mais introspectivas. A tensão apresentada pela canção nasce justamente dessa combinação de admiração, distância e projeção. O remix, intitulado “Girl, so confusing featuring lorde”, confirma que a música sempre foi menos sobre Lorde e mais sobre as inseguranças de Charli diante dessas comparações constantes. Sustentada por uma melodia irresistivelmente contagiante, a faixa se transforma em uma reflexão sobre a pressão exercida sobre mulheres que vivem sob escrutínio público e sobre a maneira como essa pressão pode contaminar suas relações pessoais. Com Lorde sendo uma figura historicamente reservada, poucos imaginavam que ela participaria da música. No entanto, sua presença dá novo significado à composição. Em vez de simplesmente responder às observações de Charli, ela utiliza seu verso para abordar os mal-entendidos que ajudaram a criar a distância entre as duas.

Sobre a paisagem sonora carregada de auto-tune, Lorde acrescenta uma camada inesperada de vulnerabilidade. Ela fala abertamente sobre seu transtorno alimentar e sobre as inseguranças que moldaram sua postura nos últimos anos, oferecendo uma explicação para o comportamento que Charli interpretava como frieza. “Girl, so confusing featuring lorde” acaba se tornando muito mais do que um remix. É uma maneira inteligente de trazer para o centro da discussão o impacto das comparações incessantes entre artistas femininas e mostrar como a cultura da internet pode transformar inseguranças individuais em narrativas públicas. “Bem, honestamente, fiquei sem palavras / Quando acordei com sua mensagem de voz / Você me disse como estava se sentindo / Vamos resolver isso no remix”, Lorde canta. Em um gesto de honestidade admirável, ela não utiliza o espaço para apresentar uma versão alternativa da história ou rebater as inseguranças de Charli. Pelo contrário: assume parte da responsabilidade pela distância que se criou entre elas.

Seu verso, que aborda transtorno alimentar, autoimagem e a maneira como suas inseguranças acabaram se manifestando como distanciamento emocional, eleva a música a um novo patamar de vulnerabilidade e compreensão mútua. “Você sempre dizia: Vamos sair / Mas depois eu cancelava de última hora / Eu estava tão perdida na minha cabeça / E com tanto medo de aparecer nas fotos / Porque nos últimos anos / Estive em guerra em meu corpo / Tentei ficar sem comer pra emagrecer / E depois ganhei todo o peso de volta”, ela canta. Logo depois, Lorde oferece o momento mais comovente da faixa ao admitir que, por trás da imagem pública de Charli xcx, ainda existe a mesma pessoa que ela conheceu anos atrás: “Esqueci que dentro desse ícone / Ainda existe uma garotinha de Essex”. É nesse instante que a música abandona completamente qualquer traço de competição. Juntas, Charli e Lorde resistem ao ego, às comparações e às rivalidades artificiais que a indústria musical frequentemente impõe às mulheres.

Avaliação: 5 de 5.

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