KAROL G – NO ME ARREPIENTO DE SENTIR TANTO (2026)

by Gustavo Bustermann

Em seu novo álbum, KAROL G transforma o fim de um amor em um repertório irregular.

A música latina sempre encontrou inúmeras maneiras de transformar o coração partido em espetáculo. Nos últimos anos, artistas como Bad Bunny, Shakira e The Marías fizeram da separação uma matéria-prima para álbuns que combinavam vulnerabilidade, identidade e reinvenção. KAROL G já havia encontrado seu próprio lugar nessa tradição com “MAÑANA SERÁ BONITO” (2023), álbum em que a ela converteu o fim do relacionamento com Anuel AA em uma sucessão de confissões, explosões de raiva e momentos de vulnerabilidade. “NO ME ARREPIENTO DE SENTIR TANTO” parte de uma ideia semelhante, mas nem sempre consegue transformar essa intensidade emocional em um trabalho igualmente marcante. O álbum acompanha KAROL G atravessando diferentes estágios de uma separação. Há ressentimento, saudade, ciúme, desejo, nostalgia e uma disposição quase obsessiva para revisitar aquilo que já terminou. Em termos conceituais, existe material suficiente para um grande disco.

Musicalmente, entretanto, a execução é irregular: música eletrônica, cumbia, reggaeton e guitarras aparecem em sequência, mas a variedade nem sempre resulta em uma experiência verdadeiramente coesa. A faixa de abertura, “Te Llevas To”, estabelece imediatamente o tom melancólico. KAROL canta sobre alguém que a traiu e sobre o vazio deixado por essa ausência, chegando a transformar a própria paisagem em reflexo de sua dor. O problema é que a composição recorre a imagens previsíveis e frases que poderiam pertencer a inúmeras outras canções românticas. A produção eletrônica, igualmente genérica, pouco acrescenta ao material. “Maybe” e “Bebiendo Lágrimas” enfrentam uma dificuldade semelhante. KAROL G consegue transmitir sofrimento através de sua voz — especialmente quando deixa escapar as imperfeições e a fragilidade da interpretação —, mas o conteúdo das músicas nem sempre acompanha essa intensidade. Existe sentimento, mas falta uma escrita capaz de transformá-lo em algo memorável.

As participações especiais também não solucionam o problema. A presença de Drake, particularmente, produz mais desconforto do que impacto. Ao recuperar de maneira jocosa sua antiga frase sobre querer uma mulher latina, o rapper transforma uma possível brincadeira em algo difícil de considerar charmoso. O álbum ainda inclui um trecho falado em que um homem descreve sua parceira ideal como alguém “gentil e latina”, reforçando uma visão estereotipada que acaba se aproximando mais da comédia constrangedora do que da química romântica pretendida. “Still”, cantada inteiramente em inglês, segue uma fórmula igualmente familiar. A imagem da pessoa que continua dormindo com a roupa do ex é um clichê conhecido, enquanto os sintetizadores excessivamente açucarados tornam a faixa ainda mais previsível. Mesmo a colaboração com Bruno Mars, construída como uma declaração de vulnerabilidade, não consegue alcançar a força de um grande clássico romântico. Em determinados momentos, a música se aproxima mais de um pop religioso produzido em série do que de uma balada destinada a marcar.

O álbum finalmente encontra seu rumo em “MATADORA”. Sobre uma base de reggaeton tradicional e sintetizadores em potencial, KAROL recupera a persona da bichota que domina praticamente qualquer situação. Ela pode estar sofrendo pelo ex, vivendo uma aventura casual ou comandando uma pista de dança — e tudo isso pode coexistir na mesma música. É um dos momentos em que a personalidade da cantora volta a ocupar o centro da obra. “For u My lova” também funciona melhor. A introdução com órgão evoca uma marcha nupcial, criando uma ironia evidente diante de uma história de amor que nunca chegou ao casamento. A partir daí, a produção caribenha e ensolarada dá espaço para uma KAROL G mais inspirada, celebrando uma paixão tão intensa que parece transformar a própria ideia de amor.

“BbY WOW”, com rusowsky e Judeline, encontra um equilíbrio ainda mais eficiente. O dancehall melancólico desliza sobre uma amostra de “Coolie Dance”, criando uma atmosfera que as colaborações com Drake e Bruno Mars não conseguiram alcançar. Aqui, a mistura de estilos parece orgânica, e não apenas uma tentativa de ampliar o alcance do álbum. Os melhores momentos, porém, estão concentrados na parte final. “Con quién andará?” mergulha no ciúme e na paranoia que acompanham o fim de um relacionamento. Partindo de uma referência à clássica “Por Qué Te Vas”, de Jeanette, a faixa coloca KAROL imaginando se o antigo parceiro já está com outra pessoa. O dembow pesado contrasta com acordes de piano mais suaves, traduzindo musicalmente a tensão entre obsessão e melancolia. Em “Eclipse”, a cantora parece ainda mais isolada. Entre doses de tequila, ela conversa metaforicamente com a Lua e tenta compreender por que determinadas separações não são definitivas.

A imagem do eclipse transforma uma pergunta simples sobre um relacionamento em uma reflexão melancólica sobre afastamento e reencontro. “Después de ti”, por sua vez, encerra o álbum com uma das interpretações mais dolorosas de KAROL G. A guitarra de Greg Gonzalez, líder do Cigarettes After Sex, oferece uma base calorosa e familiar para uma música tomada por tristeza. É um encerramento tão abatido que a emoção deixa de parecer apenas uma performance e começa a soar genuinamente preocupante. Existe, portanto, uma artista interessante escondida dentro de “NO ME ARREPIENTO DE SENTIR TANTO”. KAROL G claramente deseja fazer um álbum sobre sentir tudo em excesso — amar demais, sofrer demais, se divertir demais e aceitar que essas experiências fazem parte de sua identidade. A proposta combina com sua persona e com a tradição melodramática da música latina. O problema é que o álbum nem sempre tem coragem de levar essa ideia até as últimas consequências.

Em “Bebiendo Lágrimas”, KAROL chega a imaginar o próprio relacionamento como um cadáver que precisa receber um funeral adequado. A metáfora é perfeita para compreender o disco: existe ali uma vontade de transformar o término em um acontecimento grandioso, quase teatral. Mas a obra raramente constrói um espetáculo à altura dessa ambição. “NO ME ARREPIENTO DE SENTIR TANTO” possui bons momentos — alguns excelentes — e confirma a capacidade de Karol G de transformar sofrimento em música pop. Ainda assim, comparado à força confessional de “MAÑANA SERÁ BONITO” (2023), o novo trabalho parece disperso. A emoção está presente em abundância, mas nem sempre encontra canções capazes de sustentá-la. KAROL G queria celebrar o excesso de sentir. Faltou apenas fazer com que o próprio álbum sentisse tudo isso com a mesma intensidade.

SCORE: 66

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