Troye Sivan transforma solidão e desejo na narrativa do seu novo álbum.
Depois de alcançar um dos momentos mais importantes de sua trajetória com “Something to Give Each Other” (2023), Troye Sivan retorna com um trabalho que amplia suas possibilidades musicais e mergulha em sentimentos menos confortáveis. Em “She’s the Best”, seu quarto álbum de estúdio, o cantor australiano explora a contradição entre a euforia da vida noturna e o vazio que aparece quando as luzes se apagam. É um disco sobre desejo, idealização, intimidade e, sobretudo, a dificuldade de encontrar uma conexão verdadeira em meio a uma existência cercada de excessos. Em uma declaração sobre o projeto, Sivan descreve o álbum como uma pintura e uma carta dedicada às mulheres que fazem parte de sua vida, mas também a um homem cuja identidade permanece indefinida. Essa dualidade aparece na própria construção do repertório. Enquanto a figura feminina representa amizade, liberdade e uma presença acessível, o homem surge como uma espécie de fantasma: alguém que pertence tanto às lembranças de relacionamentos anteriores quanto às expectativas de um futuro ainda distante.
É uma ausência que acompanha o artista mesmo nos momentos em que ele parece estar vivendo sua melhor fase. O contraste ganha ainda mais significado quando considerado o contexto de “Something to Give Each Other”. Lançado em 2023, o trabalho anterior representou uma ruptura com a imagem juvenil e delicada que acompanhava Sivan desde o início da carreira. Ao apostar em uma combinação de música eletrônica, referências dançantes e sensualidade queer, o cantor encontrou uma identidade artística mais espontânea, estabelecendo um dos registros mais interessantes do pop LGBT recente. Mesmo quando abordava frustrações amorosas, conseguia transformar vulnerabilidade em músicas envolventes, sem sacrificar sua personalidade. Agora, essa fórmula passa por uma espécie de desconstrução. Depois de dividir os palcos com Charli XCX durante o auge da temporada cultural de “BRAT” (2024), Sivan experimentou o contraste entre a energia de grandes apresentações e o isolamento que surge quando toda aquela movimentação termina.
Essa experiência atravessa “She’s the Best”, que alterna momentos de intensa celebração coletiva com canções marcadas pela solidão e pela necessidade de afeto. “Canada Dry” representa o lado mais festivo dessa proposta. Sobre uma estrutura house pulsante, Sivan brinca com diferentes registros vocais, alternando entre notas agudas e graves para construir uma faixa tão provocativa quanto divertida. O desejo aparece de maneira explícita, acompanhado por uma produção que reforça a atmosfera despreocupada da música. Já “I Do This for You” apresenta uma versão mais exagerada dessa personalidade. Ele desfila declarações de autoconfiança enquanto os sintetizadores ganham proporções cada vez maiores. Entretanto, quando a produção perde força na parte final, a máscara de superioridade também começa a desmoronar. O que parecia uma demonstração de poder termina em uma mensagem publicitária fictícia procurando pessoas solteiras em Los Angeles.
A passagem é interessante justamente por revelar a distância entre a imagem de alguém que aparentemente tem tudo e a realidade de quem não encontra companhia para dividir suas conquistas. Essa oposição, entretanto, nem sempre alcança a profundidade desejada. Sivan demonstra habilidade para representar a solidão por meio de imagens e situações, mas encontra dificuldades quando precisa transformá-la em uma experiência emocional. Em alguns momentos, existe uma distância excessiva entre o sentimento apresentado e a maneira como o próprio artista se relaciona com ele. A faixa-título exemplifica esse problema. Nela, Sivan homenageia uma mulher independente, extravagante e perfeitamente à vontade na vida noturna, capaz de transformar até mesmo uma manhã constrangedora depois de uma festa em uma entrada triunfal. A personagem é apresentada por meio de detalhes visuais e comportamentais, mas permanece superficial. Embora ele afirme que ela representa uma presença fundamental em sua vida, a composição não desenvolve suficientemente essa conexão.
A figura acaba funcionando mais como uma coleção de referências estéticas do que como alguém de personalidade realmente definida. Quando abandona essas construções mais conceituais e se aproxima de suas próprias fragilidades, porém, Sivan encontra os momentos mais fortes do álbum. “Le Boy” é um dos exemplos mais expressivos. Acompanhado por uma guitarra delicada, o cantor transforma o espaço ocupado pela própria voz em parte essencial da composição. O excesso de reverberação cria a sensação de um ambiente gigantesco e vazio, como se cada suspiro carregasse o peso de uma ausência impossível de preencher. Na linda “Embarrassingly”, a vulnerabilidade se torna ainda mais específica. Sobre guitarras etéreas e uma atmosfera que remete ao pop sofisticado dos anos 1990, Sivan admite continuar fantasiando com um antigo relacionamento, inclusive de maneira sexual. É uma confissão desconfortável, mas justamente por isso convincente. Em vez de esconder o constrangimento por trás de metáforas elaboradas, ele permite que o desejo apareça em sua forma mais humana.
“FF” e “Love So Big It Hurts” também se destacam ao explorar a vontade de encontrar um amor definitivo. As duas composições crescem gradualmente, alternando explosões instrumentais e momentos de contenção para traduzir a dimensão quase avassaladora desses sentimentos. Existe uma vulnerabilidade genuína em admitir o desejo por uma relação capaz de oferecer estabilidade, pertencimento e permanência. Musicalmente, essa disposição para experimentar é uma das maiores qualidades de “She’s the Best”, embora também revele algumas de suas limitações. Sivan parece interessado em ampliar seu vocabulário sonoro, incorporando texturas mais agressivas, efeitos vocais e estruturas menos convencionais. Quando essas escolhas se complementam, o resultado é estimulante. Quando não encontram um equilíbrio, entretanto, as referências começam a parecer deslocadas. “Troye Meets World” apresenta uma das propostas dançantes mais interessantes de sua carreira, impulsionada por uma velocidade impressionante e arranjos de cordas que acrescentam brilho à composição.
A música perde parte de seu impacto quando Sivan recorre a uma abordagem vocal que lembra excessivamente PinkPantheress, especialmente durante a passagem por uma sequência de jungle. “Cowboy” enfrenta uma dificuldade semelhante: sua mistura de desejo e referências country é muito particular e inevitavelmente desperta comparações com o universo musical de outros artistas. Os trechos falados também não ajudam muito. Presentes na faixa-título, em “I Do This for You” e em “Party”, eles parecem mais preocupados em criar uma atmosfera artística do que em acrescentar algo realmente significativo às músicas. Mesmo a utilização de uma amostra bastante reconhecível de “Music”, de Madonna, não consegue salvar “Party” da repetitividade e do tédio. A composição acaba se prolongando em uma enumeração de possíveis cenários para sair e se divertir, sem conseguir transformar a ideia em algo especialmente envolvente. Existe, portanto, uma contradição interessante no novo momento de Troye Sivan.
Ao mesmo tempo que demonstra interesse por uma música pop mais livre, irregular e emocionalmente imprevisível, ele ainda parece excessivamente preocupado em controlar a maneira como suas ideias serão apresentadas. Em determinados momentos, a sensação é de que as canções funcionam apenas como estruturas preparadas para acompanhar videoclipes elaborados, com personagens e referências cuidadosamente selecionados. Essa preocupação estética também enfraquece algumas escolhas que poderiam ser mais impactantes. “FF”, por exemplo, contém uma das declarações de amor mais emocionantes de sua carreira, mas seu título, construído a partir de uma brincadeira sexual, parece diminuir a sinceridade da mensagem. É como se Sivan precisasse recorrer ao humor e à provocação para evitar demonstrar completamente o quanto deseja encontrar um sentimento duradouro. No fim, “She’s the Best” funciona como um retrato de transição.
O álbum não possui a mesma consistência de seu antecessor e, em determinados momentos, suas ambições criativas parecem maiores do que sua capacidade de realizá-las. Ainda assim, representa uma tentativa interessante de abandonar a segurança de uma fórmula que já havia funcionado muito bem. O principal desafio de Sivan daqui em diante será permitir que suas emoções conduzam a música, em vez de tentar encaixá-las constantemente em conceitos e imagens cuidadosamente elaborados. Quando faz isso, especialmente em “Embarrassingly”, “Le Boy”, “Sex Star”, “Love So Big It Hurts” e “Lost Time”, sua personalidade artística aparece com uma clareza impressionante. A pessoa que Troye Sivan procura ao longo do álbum parece existir com tanta intensidade em sua imaginação que quase pode ser tocada. Curiosamente, é quando ele deixa de tentar controlar essa imagem e se entrega às próprias contradições que consegue chegar mais perto dela.
