Lil Nas X – J CHRIST

by Brandon Everett

Lil Nas X nunca precisou se esforçar muito para antagonizar a direita religiosa. Afinal, a simples visão de um jovem negro assumidamente gay já é suficiente para irritar parte dos conservadores. Sejam imagens de Satanás ou simplesmente a ousadia de usar um chapéu de cowboy Stetson, parece que Lil Nas X só precisa respirar para despertar a indignação de certos grupos. Depois de dançar para o Diabo no vídeo de seu álbum de estreia, MONTERO (2021), o rapper que praticamente se transformou em uma diva pop troca agora seus chifres provocativos por um manto e um cajado igualmente sugestivos para retornar como “J CHRIST”. O videoclipe é tão alucinógeno que a música demora um pouco para acompanhá-lo. O curta-metragem, dirigido pelo próprio artista, é carregado de imagens bíblicas.

Tudo começa com uma cena pastoral, na qual Lil Nas X apresenta sósias de celebridades como Kanye West, Mariah Carey, Oprah Winfrey e Barack Obama. A harmonia sagrada de um coral gospel rapidamente dá lugar a um riff de piano agourento — semelhante ao de “HUMBLE.”, de Kendrick Lamar — enquanto ele desfila pelo centro do palco, acompanhado por longas madeixas frisadas esvoaçantes, meias de futebol e um enorme colar de ouro com a palavra “SEX”. Dali, deslizamos por um poste até o inferno, onde o Diabo prepara um caldo fumegante com membros decepados, antes de subir para uma arena esportiva paradisíaca na qual Lil Nas X é crucificado, posa para os paparazzi, joga basquete contra o Diabo, dança em uma cidade pós-apocalíptica repleta de cruzes de néon e, por fim, salva a humanidade das inundações globais em uma arca. Ridiculamente divertido e deliciosamente exagerado, o vídeo brinca com uma infinidade de símbolos religiosos.

Criado no sul dos Estados Unidos, Lil Nas X tem uma relação íntima com esse imaginário. Seu pai, que se separou de sua mãe dependente química quando ele tinha seis anos, é cantor gospel, e há claramente uma herança religiosa contra a qual o artista se rebela. É fácil imaginar que tenha passado parte da adolescência rezando para não ser gay. Ainda assim, não está claro se “J CHRIST” representa a obra de um artista homossexual celebrando uma visão mais inclusiva do Cristianismo ou se apenas utiliza a religião como ferramenta estética. O melodrama do riff de piano continua aumentando a tensão enquanto ele promete aos fãs que está “de volta como J Cristo” e pronto para “deixar os gays entusiasmados”. A música também faz referências à sua própria viralidade e ao retorno ao cenário musical após um período menos ativo: “Será que ele tá tramando algo que só eu sei? / Será que ele vai mandar o agudo? / Será que ele vai entregar algo viral? / Será que ele vai mandar o agudo?”, canta no refrão. Embora a música não consiga competir com a força visual das imagens, continua sendo um número caótico e extremamente divertido. E, mesmo que a composição seja relativamente básica, Lil Nas X a sustenta com puro carisma, trocando seu velho cavalo por uma carruagem dourada.

Avaliação: 3.5 de 5.

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