Em “Like That”, Future se gaba de suas aventuras sexuais e de seus suprimentos aparentemente inesgotáveis de drogas sobre uma batida eletrizante. Ainda assim, é Kendrick Lamar quem domina completamente a faixa, lançando uma sequência de versos afiados contra Drake e J. Cole. Os três costumam ser apontados como os pesos-pesados do rap contemporâneo, mas Lamar utiliza sua participação para reivindicar o topo da hierarquia. Raramente ele passa despercebido, porém aqui soa particularmente possuído, canalizando sua raiva em uma entrega voraz e faminta por confronto. No ano passado, J. Cole fez referência aos chamados “três grandes” em “First Person Shooter”, faixa de For All the Dogs (2023): “Eu amo quando eles brigam sobre quem é o melhor MC / Será que é o K-Dot? É o Aubrey? Ou sou eu?”. Drake respondeu reforçando essa ideia e, ao mesmo tempo, diminuindo a importância de Kendrick: “Quem é O Melhor de Todos os Tempos? / Pra quem vocês, suas putas, estão torcendo de verdade? / Como uma criança que não se comportou de janeiro até novembro, cara, é só eu e o Cole”.
Em “Like That”, Lamar não perde tempo e dedica alguns versos diretamente a “First Person Shooter”. “Foda-se mandar indiretas / Tiro em primeira pessoa, eu espero que tenham vindo com três armas”, dispara, antes de acrescentar: “Foda-se o top 3, cara, eu sou o maior de todos”. Mais adiante, ele exalta a qualidade de sua própria obra e sugere que seu legado sobreviverá à influência dos rivais, recorrendo à histórica rivalidade entre Prince e Michael Jackson como ponto de comparação. “E o seu melhor trabalho ainda é o mais fraco / Cara, o Prince superou o Mike Jack”. Em seguida, ele eleva ainda mais o tom da ameaça: “Antes que todos vocês, seus cachorrões, sejam enterrados / Esse aqui é o K armado até os dentes, ele vai ver O Cemitério Maldito”.
A própria faixa funciona como uma zona de guerra construída sobre uma produção sinistra e carregada de elementos do trap. Metro Boomin cria uma paisagem sonora ameaçadora, ancorada pela amostra de “Eazy-Duz-It”, de Eazy-E. Future entrega um verso tipicamente cativante e estabelece a plataforma ideal para que Kendrick lance seu ataque lírico. Quando chega sua vez, Lamar atravessa a produção com intensidade devastadora, confrontando diretamente a ideia dos “três grandes”, rótulo frequentemente atribuído a ele, Drake e Cole. Future continua sendo um dos rappers mais influentes de sua geração, mas até ele e Metro Boomin parecem compreender a gravidade do momento. Quando retorna para seu segundo verso, Future já não ocupa o centro das atenções. Ele surge quase como uma figura orbitando a enorme cratera aberta por Kendrick Lamar no coração da música.
